FRÍNIA

By Gustavo de Paula Teixeira

É uma dócil menina carinhosa

— Um assombro de estética divina! —

De uma sadia carnação de rosa,

Radiosamente loira e alabastrina!

É tão ingênua como a borboleta

Que anda a esvoaçar pelas manhãs de gala,

Ora em redor dos tufos de violeta,

Ora entre as moitas de cecéns de opala.

Quando ela fala, a sua voz ridente,

De um timbre docemente cristalino,

É tão maviosa e musical que a gente

Pensa escutar as notas de um violino...

Se alguém a visse num altar, na igreja,

Julgaria estar vendo a virgem Santa.

A estrela do pastor pirilampeja

Em seu riso que as pérolas suplanta.

Quando — aos primeiros raios loirejantes

Do sol que rasga a teia das neblinas —

Ela sai a passeio, as orquestrantes

Patativas entoam cavatinas.

Nem uma abelha a melindrar se atreve

Essa visão seráfica do Empíreo,

Alva, mais alva do que a própria neve,

Pura, mais pura do que o próprio lírio!

Agita-se a frondagem do arvoredo

Num jubiloso frêmito de glória,

E as flores, murmurando-lhe um segredo,

Beijam-lhe a mão acetinada e flórea.

Segue-a por tudo um coro de gorjeios.

No vale os melros — menestréis audazes, —

Rendilhando adoráveis galanteios,

Oferecem-lhe ramos de lilases.

Osculam-na as falenas furta-cores,

Causando aos cravos pungitivo ciúme.

Quando ela foge do vergel, as flores

Soltam fundos suspiros de perfume...

É muito meiga e tímida. Se um ruído

Escuta, corre, pávida, ofegante,

Rasgando nas roseiras o vestido,

Mais veloz do que a célere Atalante.

Quando ela, o azúleo ambiente ensandalando,

Pega em dous leques, doudejante e lesta,

Tenho medo que, as asas tatalando,

Voe e se perca pelo azul em festa!

É um gosto vê-la cheia de ternura

Amamentando uma boneca eslava

De uma expressão de angélica doçura,

Olhos cerúleos, cabeleira flava.

Fala-lhe a rir com a boca muito rente,

Ao lácteo seio aperta-a com delírio,

E beija-lhe a carinha gracilmente...

É a estrela d’Alva acalentando um lírio!

Quando os meus versos, num enlevo, canta,

É um rouxinol fazendo a sua prece...

Às vezes penso: — “Esta menina é a santa

Que num andor de rosas me aparece!”

Chamei-lhe “minha noiva” certo dia:

Ela escondeu as faces esbraseadas...

A sua alma é uma alegre cotovia

Que anda a ensaiar suavíssimas baladas!

Por essa Flor que vem desabrochando

Cheia do casto aroma da inocência,

Irei a minha lira dedilhando

Através das batalhas da existência...