FRÍNIA
É uma dócil menina carinhosa
— Um assombro de estética divina! —
De uma sadia carnação de rosa,
Radiosamente loira e alabastrina!
É tão ingênua como a borboleta
Que anda a esvoaçar pelas manhãs de gala,
Ora em redor dos tufos de violeta,
Ora entre as moitas de cecéns de opala.
Quando ela fala, a sua voz ridente,
De um timbre docemente cristalino,
É tão maviosa e musical que a gente
Pensa escutar as notas de um violino...
Se alguém a visse num altar, na igreja,
Julgaria estar vendo a virgem Santa.
A estrela do pastor pirilampeja
Em seu riso que as pérolas suplanta.
Quando — aos primeiros raios loirejantes
Do sol que rasga a teia das neblinas —
Ela sai a passeio, as orquestrantes
Patativas entoam cavatinas.
Nem uma abelha a melindrar se atreve
Essa visão seráfica do Empíreo,
Alva, mais alva do que a própria neve,
Pura, mais pura do que o próprio lírio!
Agita-se a frondagem do arvoredo
Num jubiloso frêmito de glória,
E as flores, murmurando-lhe um segredo,
Beijam-lhe a mão acetinada e flórea.
Segue-a por tudo um coro de gorjeios.
No vale os melros — menestréis audazes, —
Rendilhando adoráveis galanteios,
Oferecem-lhe ramos de lilases.
Osculam-na as falenas furta-cores,
Causando aos cravos pungitivo ciúme.
Quando ela foge do vergel, as flores
Soltam fundos suspiros de perfume...
É muito meiga e tímida. Se um ruído
Escuta, corre, pávida, ofegante,
Rasgando nas roseiras o vestido,
Mais veloz do que a célere Atalante.
Quando ela, o azúleo ambiente ensandalando,
Pega em dous leques, doudejante e lesta,
Tenho medo que, as asas tatalando,
Voe e se perca pelo azul em festa!
É um gosto vê-la cheia de ternura
Amamentando uma boneca eslava
De uma expressão de angélica doçura,
Olhos cerúleos, cabeleira flava.
Fala-lhe a rir com a boca muito rente,
Ao lácteo seio aperta-a com delírio,
E beija-lhe a carinha gracilmente...
É a estrela d’Alva acalentando um lírio!
Quando os meus versos, num enlevo, canta,
É um rouxinol fazendo a sua prece...
Às vezes penso: — “Esta menina é a santa
Que num andor de rosas me aparece!”
Chamei-lhe “minha noiva” certo dia:
Ela escondeu as faces esbraseadas...
A sua alma é uma alegre cotovia
Que anda a ensaiar suavíssimas baladas!
Por essa Flor que vem desabrochando
Cheia do casto aroma da inocência,
Irei a minha lira dedilhando
Através das batalhas da existência...