FUGINDO HUMA MULATINHA COM O SUGEYTO, QUE A TINHA FORRADO, DESCREVE O POETA OS EXCESSOS, E SENTIMENTO, QUE MOSTRAVA HUMA FULANA DE LIMA SUA SENHORA.
Senhora Lima, o que tem,
que amanheceu tão sentida?
diga-me por sua vida,
assim Deus lhe faça bem:
diga-me qual é, e quem
lhe causa tanta tristeza?
porquanto eu por natureza
sinto, se é ingratidão,
ou talvez murmuração
dessa sua sutileza.
Que hei de ter, minha Fonseca?
Um tormento, que me mata.
Fugiu Ilária a mulata,
porque já não quer ser peca:
despediu-se assim tão seca.
Não chore, que ela virá.
Jesus! que o mundo dirá!
que a mandei a Sor Martinho.
Veja em casa do vizinho.
Meu Estrela, tem-na lá?
Quem, Senhora, cá tão cedo?
Ilária, Senhor, pergunto,
que não sei, se algum defunto
ma levou tanto em segredo;
Ai vida cansada! hei medo,
pelo que se há de dizer.
Onde se iria esconder,
se ela não sabe caminho,
nem carreira? Meu vizinho.
Senhora Lima? Lim. Que hei de fazer?
Chica, que é de Ilarinha?
dize, negra do diabo.
Vai vê-la, senão teu rabo
pagará, por vida minha;
Eu não sei da mulatinha,
nem me entendo com papéis:
quem deu cinquenta mil-réis
a deve de ter em casa
porque aqui nunca fez vaza.
Ó putona, isso dizeis?
Digo, que Ilária é forra.
Há de ser, quando eu morrer,
que isso está no meu querer;
cala essa boca, cachorra:
traga-me aqui logo, e corra,
que hei de quebrar-lhe o focinho.
Tem-na lá, senhor vizinho,
a minha Ilária, Senhor?
Fugiu perdida de amor
pela manhã bem cedinho.