GEADAS...

By Delminda Silveira de Sousa

Qu’espesso manto,

branco, gelado,

cobre os outeiros,

a serrania;

e pelos campos

e pelo prado,

como um sudário,

longo se amplia!

Verdes pastagens,

lindas, outrora,

como tapetes

aveludados,

míseros, tristes,

mostram-se agora,

nuas, despidas,

dos seus gramados.

Aos duros tratos,

rudos, abruptos,

os cafezais

choram lembranças

das níveas flores,

dos rubros frutos,

doces esp’ranças.

As tenras, novas,

viçosas canas,

pendem, mirradas...

Oh! desventura!

Com verdes palmas

crescendo, ufanas,

murchas agora

sem ter doçura!...

E os rios gelam...

Morrem os peixes,

morrem as aves,

morrem as flores!...

Do flavo trigo

dourados feixes,

quando hão de tê-los

os segadores?

As áureas flores

do algodoeiro,

que a branca felpa

no seio têm,

quando há de vê-las

o fazendeiro,

nos verdes ramos

brilhar, também?

Não terão pasto

mansas ovelhas,

que os vastos campos

não têm verdores;

em balde, em balde,

destras abelhas

por esses prados

buscarão flores!

Morrem de frio

as criancinhas

sem terem pano

para vestir;

sem lã, sem leite

das ovelhinhas,

que desconfortos

hão de sentir!...

Deus de piedade!

Deus de clemência,

Olhai da terra

essa tristeza!

Da Primavera

c’oa florescência,

cobri d’encantos

a Natureza!

E as novas flores,

os passarinhos

e as criancinhas

vos bendirão;

pelas devesas,

pelos caminhos,

hinos cantando

de gratidão!