GENEALOGIA QUE O POETA FAZ DO GOVERNADOR ANTONIO LUIZ DESABAFANDO EM QUEYXAS DO ...

By Gregório de Matos Guerra

Veio ao Espírito Santo

da Ilha da Madeira Alz.

um Escudeiro Gonçalves

mais pobretão, que outro tanto:

e topando a cada canto

as Tapuias do lugar

havendo uma de tomar

para a bainha da espada,

tomou Vitória agradada,

que então lhe soube agradar.

A tal era uma Tapuia

grossa como uma jibóia,

que roncava de tipóia,

e manducava de cuia:

tocando ela a Aleluia,

tirava ele a culumbrina

com tal estrago, e ruína,

que chegando a conjuncão

lhe encaixou a opilação

por entre as vias da urina.

Pariu a seu tempo um cuco,

um monstro (digo) inumano,

que no bico era tucano

e no sangue mamaluco:

mas não tendo bazaruco,

com que faça o batizado

lhe assistiu sem ser rogado

um troço de fidalguia

pedestre cavalaria

toda de beiço furado.

O Cura, que não curou

de buscar no Calendário

nome de Santo ordinário,

por Antônio o batizou:

tanto o colonim mamou,

e tais forças tomou, que

antes de se pôr de pé,

e antes de estar já de vez,

não falava o português,

mas dizia o seu cobé.

Cansado de ver a Avoa

co’as cuias à dependura,

tratou de buscar ventura,

e embarcou numa canoa:

vindo aportar a Lisboa,

presumiu de fidalguia,

cuidou, que era outra Bahia,

onde basta a presunção

para fazer-se a um cristão

muchíssima cortesia.

Casou com uma rascoa,

que por ele ardia em chamas,

e era criada das Damas

da Rainha de Lisboa:

era uma grande pessoa,

porque tinha um cartapácio,

onde estudava de espácio

todo o primor cortesão,

que até um sujo esfregão

cheira a primor em Palácio.

Nasceu deste matrimônio

um Anjo, digo, um Marmanjo,

que era no simples um Anjo,

e no maligno um demônio:

deram-lhe por nome Antônio;

oh se o Santo tal cuidara!

creio eu, que se irritara

o grande Português tanto,

que deixara de ser Santo,

e o nome lhe não sujara.

Este pois por exaltar-se

veio reger a Bahia:

que bom governo faria,

quem não sabe governar-se!

se ele quisera enforcar-se

pelos que enforcar fazia,

que bom dia nos daria!

mas ele tão mal se salva,

que quando dava a mão alva

então tomava o bom dia.

O Ministro há de ser são,

justo, e não desobrigado,

há de ter ódio ao pecado,

e ao pecador compaixão:

que se tem má propensão,

faz justiça, mas com vício,

e se maior malefício

tem, e pode condenar-me,

livre-me Deus de julgar-me

oficial do meu ofício.

Que, porque furto, o que coma,

me enforquem, pode passar,

mas que me mande enforcar

a bengala de um Sodoma!

quem sofrerá, que Mafoma

me queime por mau cristão,

vendo, que Mafoma é cão,

velhaco, e de suja alparca,

e o mais torpe heresiarca,

que houve entre os filhos de Adão.

Quem na terra sofreria,

que o fedor de um ataúde

com bioco de virtude

disfarçasse a Sodomia?

e de feito em cada dia

desse ao povo um enforcado,

e que de puro malvado

desse esse dia um banquete,

e alegrasse o seu bofete

com bom vinho, e bom bocado?

O bem, que os mais bens encerra,

e as glórias todas contém,

é reinar, quem reina bem,

pois figura a Deus na terra:

eu cuido, que o mundo erra

nesta alta reputação,

que se o Rei erra uma ação,

paga a seu alto atributo

um tristíssimo tributo,

e misérrima pensão.

O Príncipe soberano

bom cristão temente a Deus,

se o não socorrem aos céus,

pensões paga ao ser humano:

está sujeito ao tirano,

que adulando ambicioso

é áspide venenoso,

que achacando-lhe os sentidos,

turbado o deixa de ouvidos,

de olhos o deixa ludoso.

Se fosse El-Rei informado,

de quem o Tucano era,

nunca à Bahia viera

governar um povo honrado:

mas foi El-Rei enganado,

e eu com o povo o paguei,

que é já costume, e já lei

dos reinos sem intervalo,

que pague o triste vassalo

os desacertos de um Rei.

Pagamos, que um figurilha

corcova de canastrão

com nariz de rebecão

em cara de bandurrilha,

descompusesse a quadrilha

dos homens mais bem nascidos,

e que dos mal procedidos

tal estimação fizesse,

que honras, e postos lhes desse

por lhe encherem os ouvidos.

Pagamos ver esta Hiena,

que com a voz nos engana,

pois fala como putana,

e como fera condena:

que uma terra tão amena,

tão fértil, e fão fecunda

a tornasse tão imunda

falta de saúde, e pão;

mas foi força, que tal mão

peste, e fome nos infunda.

Pagamos que um homem bronco

racional como um calhau,

mamaluco em quarto grau,

e maligno desde o tronco:

apenas se dá um ronco,

em briga apenas se fala,

quando os sargentos a escala

prendem com descortesia

aos honrados na enxovia,

todo o patifão na sala.

Pagamos, que um Sodomita,

porque o seu vício dissesse,

todo o homem aborrecesse,

que com mulheres coabita:

e porque ninguém lhe quita

ser um vigário-geral

com pretexto paternal,

aos filhos, e aos criados

tenha sempre aferrolhados

para o pecado mortal.

Pagamos, que o tal jumento

isento de mãos guadunhas

não furtasse pelas unhas,

senão por consentimento:

e que os quatro vezes cento,

que se vieram trazer

ao seu capitão mulher,

porque o pão suba mais dez,

não foi furto, que ele fez,

mas deu jeito a se fazer.

Pagamos ver o Prelado,

que se peca, é de prudente,

dos serventes de um agente

descortesmente ultrajado:

o sobrinho amortalhado

com tão fidalgos brasões

pela Puta dos calções,

que fiado em ser valido

fez do sangue esclarecido

tão lastimosos borrões.

Pagamos com dor interna,

que nos passos da Paixão

tão devoto é da prisão,

que quer levar a lenterna:

se entende, que a glória eterna

prendendo há de merecer,

fora melhor entender,

que o céu lhe dá mais ganhado,

não dormir-se co criado,

que desvelar-se em prender.

Pagamos vê-lo esperar,

e estar com expectativas

de ser Conde das Maldivas

por serviços de enforcar:

e como mandou tirar

um rol dos quatro maraus,

que enforcou por vaganaus,

cuidei (assim Deus me valha)

que entre os Condes da baralha

fosse ele o Conde de paus.

Porém Sua Majestade,

Qual Príncipe Soberano,

que não se indigna de humano

sem dano da dignidade:

conhecida esta verdade,

que é verdade conhecida,

fará justiça cumprida,

para que se lhe agradeça,

que o mau na própria cabeça

traga a justiça aprendida.

E porque nós de antemão

a seus favores mostremos,

quanto lhos agradecemos,

lhe agradecemos D. João:

era justo, era razão,

conforme o direito e lei,

quando o Rei dá Juiz a Grei,

outro em seu lugar dispor,

que seja o Governador

tão fidalgo como El-Rei.