GLOSA

By José Joaquim Correia de Almeida

Os heróis de nossa terra

Alçaram o vício ao trono,

E, por nosso desabono,

Tudo quanto o vício encerra;

A boa fé se desterra,

E degrada-se o civismo:

Ambicioso egoísmo

Temendo a luz que o ofusca,

Suplantar procura, busca

O nobre patriotismo.

É bem fácil a vitória

Do perverso contra o justo,

Sem trabalho ou maior custo

Alcança troféus e glória,

E no templo da Memória

Belo artífice esculpindo

Um letreiro esbelto e lindo

Põe por dístico no cobre:

— O Patriotismo nobre

Caiu no exercício findo.

Depois de formal derrota,

Segue-se bom resultado;

A Constituição do Estado

É, folha por folha, rota:

Aumenta-se a verba e quota,

É cada empregado harpia,

E a funesta oligarquia

Trata de realizar

Aquilo que, por zombar,

O gênio do mal dizia.

Contínua calamidade,

A guerra, a fome, a desgraça,

Febre amarela que grassa,

E dizima a humanidade:

Por Cúm’lo de iniquidade

A pública fé caindo

E o perjúrio progredindo,

Mais do que certo fizera

O que o gênio predissera

Sarcasticamente rindo.