Grito de guerra

By João da Cruz e Sousa

Bem! A palavra dentro em vós escrita

Em colossais e rubros caracteres,

É valorosa, pródiga, infinita,

Tem proporções de claros rosicleres.

Como uma chuva olímpica de estrelas

Todas as vidas livres, fulgurosas,

Resplandecendo, — vós tereis de vê-las

Rolar, rolar nas vastidões gloriosas.

Basta do escravo, ao suplicante rogo,

Subindo acima das etéreas gazas,

Do sol da ideia no escaldante fogo,

Queimar, queimar as rutilantes asas.

Queimar nas chamas luminosas, francas

Embora o grito da matéria apague-as;

Porque afinal as consciências brancas

São imponentes como as grandes águias.

Basta na forja, no arsenal da ideia,

Fundir a ideia que mais bela achardes,

Como uma enorme e fulgida Odisseia

Da humanidade aos imortais alardes.

Quem como vós principiou na festa

Da liberdade vitoriosa e grande,

Há de sentir no coração a orquestra

Do amor que como um bom luar se expande.

Vamos! São horas de rasgar das frontes

Os véus sangrentos das fatais desgraças

E encher da luz dos vastos horizontes

Todos os tristes corações das raças...

A mocidade é uma falena de ouro,

Dela é que irrompe o sol do bem mais puro:

Vamos! Erguei vosso ideal tão louro

Para remir o universal futuro...

O pensamento é como o mar — rebenta,

Ferve, combate — herculeamente enorme

E como o mar na maior febre aumenta,

Trabalha, luta com furor — não dorme.

Abri portanto a agigantada leiva,

Quebrando a fundo os espectrais embargos,

Pois que entrareis, numa explosão de seiva,

Muito melhor nos panteões mais largos.

Vão desfilando como azuis coortes

De aves alegres nas esferas calmas,

Na atmosfera espiritual dos fortes,

Os aguerridos batalhões das almas.

Quem vai da sombra para a luz partindo

Quanta amargura foi talvez deixando

Pelas estradas da existência — rindo

Fora — mas dentro, que ilusões chorando.

Da treva o escuro e aprofundado abismo

Enchei, fartai de essenciais auroras,

E o americano e fértil organismo

De retumbantes vibrações sonoras.

Fecundos germens racionais produzam

Nessas cabeças, claridões de maios...

Cruzem-se em vós — como também se cruzam

Raios e raios na amplidão dos raios.

Os britadores sociais e rudes

Da luz vital às bélicas trombetas,

Hão de formar de todas as virtudes

As seculares, brônzeas picaretas.

Para que o mal nos antros se contorça

Ante o pensar que o sangue vos abala,

Para subir — é necessário — é força

Descer primeiro a noite da senzala.