Gusla da saudade

By João da Cruz e Sousa

Nunca mais, nunca mais esses teus olhos

Palpitarão nos olhos seus honestos

Nem hão de vê-lo em ânsias por escolhos.

Ele morreu, morreu — e os mais funestos

Lutos da dor feriram como abrolhos

Teu lar e os teus — serenos e modestos.

Que incalculável explosão de prantos

Não inundou as almas preciosas

Dos teus irmãos, da tua mãe — uns santos

Que peregrinam nestas lacrimosas

Sendas da vida, em mágoas, sem encantos

Como sem luz e sem orvalho as rosas.

Ah! formidável lei cruel da vida,

Lei da matéria, da mudez das lousas,

Da eterna noite atroz, indefinida;

Tens o segredo intérmino das cousas,

E nessa dura e tenebrosa lida,

Oh! nem sequer um dia só repousas.

Quem sabe, ó morte, ó lúgubre, quem sabe

O teu poder fatal, desapiedado

Onde se oculta e se resume e cabe.

Pois nem que o céu puríssimo, azulado

Cair aos pedaços, tombe e se desabe

Na profundez do abismo ilimitado

E a crença humana espavorida, em gritos,

Palpando o nada, esquálida, gemendo

Rasgue a amplidão de estranhos infinitos,

Nunca da morte saberão o horrendo

Mistério rijo e surdo dos granitos

Os corações que vivem combatendo?!...

Não! A Ciência penetrou, o estudo

Do pensador, abriu mais horizontes

Nesse problema silencioso e mudo.

O pensamento constelou as frontes,

Deu a razão o mais brunido escudo

E construiu as luminosas pontes

De onde se vai, com grande olhar, seguro,

Atravessar as regiões sonoras

Dos Ideais que irrompem do Futuro;

E sem contar dos séculos as horas,

E sem temer as mil visões do Escuro,

Alegremente ao fresco das auroras.

Mas entretanto, ó meu amigo, escuta,

Toda a saudade, a grande nostalgia

Nos deixa frios, mortos para a luta.

Porque, olha, a morte é sempre uma agonia!