headPISTOLA VI
Pedis-me, Algano, que do meu destino
O enredo peregrino
Vos conte, desde o dia em que, deixada
A pobre choça, a habitação amada,
Para tão triste mal, tão cruel guerra,
Deixei esta montanha, e aquela serra
Busquei, onde jamais o manso gado
Havia apascentado
Daliso nem Alfemo,
Pastores que nas prendas eu não temo
Que competir-lhes possa
Cousa alguma, a não ser a glória vossa.
Ai! quanto, caro Amigo,
Esta obediência custa! Mas se digo
Que me sufoca a voz o sentimento
De uma ardente paixão, o meu tormento
Só na vossa amizade,
Que a compaixão promete, a atrocidade
Moderar pode de um profundo dano,
Que no íntimo arcano
De meu aflito peito,
Não menos que o respeito,
Amor tem encerrado.
Este Monstro vendado,
Gigante, que sem pôr sobre a grandeza
De um monte o outro monte, a redondeza
Do Olimpo tem prostrado,
E ao soberano Jove despojado
Do raio fulminante;
Este estrago incessante,
A quem valor não basta, nem escudo,
Porque tudo destrói, e estraga tudo,
Sendo a sua impiedade
Verdugo infiel da pobre liberdade;
E o mísero alvedrio,
Perdida a glória, despojado o brio,
Serve de ornar com precipício infausto
De seu triunfante carro o ardente fausto;
Naquele dia, Algano, em que apartada
Do rebanho a melhor, a mais amada,
Branca, e tenra ovelhinha,
Solícito me tinha,
Levou-me o Monstro cego,
Desde as úmidas margens do Mondego,
Habitação gostosa,
Ou já pela corrente deliciosa,
Ou pela verde sombra dos salgueiros,
Por ásperos oiteiros
Levou-me o Monstro cego. Entenderias
A cada instante, Algano,
Vendo iminente o dano
E a face da ruína tão presente,
Que aquele escuro sítio era somente
Ou de enigmas depósito sombrio,
Ou túmulo fatal do sono frio.
Ali não florescia o lírio brando,
Nem ovelha pastando
Ali se divisava;
De estéril produção da pedra brava
A terra se cobria.
Um risco, e outro risco discorria
Assim o meu cuidado,
E Amor já tão ligado
A seu carro fatal me tinha, que, indo
A noite as asas sobre o monte abrindo,
Da sombra carregada
Nada me acobardava: porque nada
Poder tão raro tinha, e tão ativo,
Como de Amor o raio executivo.
Depois enfim que a Aurora
Foi acendendo a tocha brilhadora
Do luminoso Febo,
Diviso de Corebo
O campo dilatado;
Corebo, esse Pastor tão nomeado,
Não só pela riqueza,
Mas inda pela graça e gentileza
Das Ninfas e Pastoras,
De sítio tão feliz habitadoras.
Pelo prado e floresta,
Cada uma tão gentil se manifesta,
Que não há fresca rosa
Que possa competir-lhes por formosa.
Cobertas andam todas de um pelico
Mais cândido e mais rico
Que a pele de um arminho esbranquiçado:
Por um e outro lado
Tecem as flores belas,
Qual mostra o firmamento áureas estrelas.
Porém maior espanto
É ver o cajadinho, que com tanto
Capricho vão movendo;
Ora sobre ele tendo
A branca mão, ora encostando a face,
Em que Amor era força se abrasasse.
Ovelhas vêm guiando,
E em vário som cantando
Os míseros amores
De Ninfas e Pastores,
Que naquela floresta
Viu a sorte funesta,
Ou o soberbo fado,
Em venturoso, ou infeliz estado.
Não há Ninfa mimosa,
A quem de Amor a seta venenosa
Não penetrasse o peito.
De Corebo o respeito
A todas sufocava:
Cada uma o que sentia mais calava,
Porque o Pastor tirano,
Por zelo ou crueldade (ai! caro Algano!)
A todas tinha posto
Violenta escravidão na lei do gosto.
Daliso desterrado
Gemia a infausta pena de um cuidado,
Que para o sentimento
Vivo tem na memória o seu tormento;
Anfriso sem ventura
Suspirava a perdida formosura
Em cárcere cruel, que em dura pena
Corebo, o pastor bárbaro, lhe ordena,
Imaginando ser culpa, que infama,
Arder de Amor na venturosa chama.
Eu, que os exemplos via
De tanto estrago e tanta tirania,
Em Galatéia pondo o pensamento,
Adorava por glória o meu tormento.
Tão bela era a Pastora, que somente
Ela fazia o campo estar contente.
Nos seus olhos Amor depositava
Um veneno tão doce, que, se olhava,
Atrás do seu ligeiro movimento,
Levava os corações e o pensamento.
Porém já de meu peito terno e brando
A dor fera e cruel me está chamando
A que, Algano, vos conte
Os suspiros que ao céu, ao vale, ao monte,
Inutilmente dados,
Foram da ingrata Ninfa desprezados.
A ânsia continuava,
Prosseguia o gemido, não cessava
Meu excessivo pranto:
Mas a dispêndio tanto,
Compravam meus ardores
Ingratas sem-razões, duros rigores.
Um mês quase corria,
E esperanças de um dia, e outro dia
Guiavam meu desvelo
Atrás do seu rigor, só por vencê-lo.
Ah! quem vozes tivera,
Algano meu, que referir pudera
Qual foi o excesso então daquele dia,
Quando cedendo à força da porfia
De um coração, que entre rigores arde,
Intérpretes seus olhos numa tarde,
Fez de não sei que incógnita piedade,
Que recatava menos a vontade!
Desde então... mas que emprendo!
Logo Amor aleivoso um golpe horrendo
Contra mim fulminou, roubando a glória
De tão alta vitória:
De Corebo à notícia,
Fez que chegasse o júbilo, a delícia
Que provava minha alma. O Pastor fero,
Mais cruel, mais severo,
A pena repartindo
Entre dous corações, ao gesto lindo
Da Ninfa mais mimosa
Ordena uma tristeza rigorosa;
E a mim, por maior pena,
Um desterro duríssimo me ordena.
Deixei-a desmaiada,
Triste, desconsolada,
Seu riso convertido em vivo pranto:
E eu (triste de mim!) martírio tanto
Suporto neste fúnebre retiro,
Que a meus ais, a meu pranto, a meu suspiro,
Enterneço os rochedos,
Movo as feras, os troncos e os penedos.
Quem me dissera, Algano,
Que o fado desumano,
Fingindo-se propício,
Me encaminhava a tanto precipício!
E já que foi tão duro,
Que com rosto perjuro
Me pôde conceder um breve instante
De alegria, e de gosto ao peito amante,
Que causa teve o fado
Para me não levar trás meu cuidado,
Conspirando a fereza
De Corebo cruel contra a firmeza
De minha adoração, deixando afável
Do golpe inexorável
Da Parca enfurecida,
Extinto o meu amor na minha vida?
Mas ah! Que em não matar-me,
O fado mais cruel se quis mostrar-me:
Assim mais se acredita
A fúria que meu peito debilita:
Pois louco e delirante
Vivo sempre em tormento. Astro inconstante,
Maligno, desigual, sempre em meu dano
(Ai, caríssimo Algano!)
Ordenará que eu seja
Vítima do rigor, e mais da inveja.