headPISTOLA VI

By Cláudio Manuel da Costa

Pedis-me, Algano, que do meu destino

O enredo peregrino

Vos conte, desde o dia em que, deixada

A pobre choça, a habitação amada,

Para tão triste mal, tão cruel guerra,

Deixei esta montanha, e aquela serra

Busquei, onde jamais o manso gado

Havia apascentado

Daliso nem Alfemo,

Pastores que nas prendas eu não temo

Que competir-lhes possa

Cousa alguma, a não ser a glória vossa.

Ai! quanto, caro Amigo,

Esta obediência custa! Mas se digo

Que me sufoca a voz o sentimento

De uma ardente paixão, o meu tormento

Só na vossa amizade,

Que a compaixão promete, a atrocidade

Moderar pode de um profundo dano,

Que no íntimo arcano

De meu aflito peito,

Não menos que o respeito,

Amor tem encerrado.

Este Monstro vendado,

Gigante, que sem pôr sobre a grandeza

De um monte o outro monte, a redondeza

Do Olimpo tem prostrado,

E ao soberano Jove despojado

Do raio fulminante;

Este estrago incessante,

A quem valor não basta, nem escudo,

Porque tudo destrói, e estraga tudo,

Sendo a sua impiedade

Verdugo infiel da pobre liberdade;

E o mísero alvedrio,

Perdida a glória, despojado o brio,

Serve de ornar com precipício infausto

De seu triunfante carro o ardente fausto;

Naquele dia, Algano, em que apartada

Do rebanho a melhor, a mais amada,

Branca, e tenra ovelhinha,

Solícito me tinha,

Levou-me o Monstro cego,

Desde as úmidas margens do Mondego,

Habitação gostosa,

Ou já pela corrente deliciosa,

Ou pela verde sombra dos salgueiros,

Por ásperos oiteiros

Levou-me o Monstro cego. Entenderias

A cada instante, Algano,

Vendo iminente o dano

E a face da ruína tão presente,

Que aquele escuro sítio era somente

Ou de enigmas depósito sombrio,

Ou túmulo fatal do sono frio.

Ali não florescia o lírio brando,

Nem ovelha pastando

Ali se divisava;

De estéril produção da pedra brava

A terra se cobria.

Um risco, e outro risco discorria

Assim o meu cuidado,

E Amor já tão ligado

A seu carro fatal me tinha, que, indo

A noite as asas sobre o monte abrindo,

Da sombra carregada

Nada me acobardava: porque nada

Poder tão raro tinha, e tão ativo,

Como de Amor o raio executivo.

Depois enfim que a Aurora

Foi acendendo a tocha brilhadora

Do luminoso Febo,

Diviso de Corebo

O campo dilatado;

Corebo, esse Pastor tão nomeado,

Não só pela riqueza,

Mas inda pela graça e gentileza

Das Ninfas e Pastoras,

De sítio tão feliz habitadoras.

Pelo prado e floresta,

Cada uma tão gentil se manifesta,

Que não há fresca rosa

Que possa competir-lhes por formosa.

Cobertas andam todas de um pelico

Mais cândido e mais rico

Que a pele de um arminho esbranquiçado:

Por um e outro lado

Tecem as flores belas,

Qual mostra o firmamento áureas estrelas.

Porém maior espanto

É ver o cajadinho, que com tanto

Capricho vão movendo;

Ora sobre ele tendo

A branca mão, ora encostando a face,

Em que Amor era força se abrasasse.

Ovelhas vêm guiando,

E em vário som cantando

Os míseros amores

De Ninfas e Pastores,

Que naquela floresta

Viu a sorte funesta,

Ou o soberbo fado,

Em venturoso, ou infeliz estado.

Não há Ninfa mimosa,

A quem de Amor a seta venenosa

Não penetrasse o peito.

De Corebo o respeito

A todas sufocava:

Cada uma o que sentia mais calava,

Porque o Pastor tirano,

Por zelo ou crueldade (ai! caro Algano!)

A todas tinha posto

Violenta escravidão na lei do gosto.

Daliso desterrado

Gemia a infausta pena de um cuidado,

Que para o sentimento

Vivo tem na memória o seu tormento;

Anfriso sem ventura

Suspirava a perdida formosura

Em cárcere cruel, que em dura pena

Corebo, o pastor bárbaro, lhe ordena,

Imaginando ser culpa, que infama,

Arder de Amor na venturosa chama.

Eu, que os exemplos via

De tanto estrago e tanta tirania,

Em Galatéia pondo o pensamento,

Adorava por glória o meu tormento.

Tão bela era a Pastora, que somente

Ela fazia o campo estar contente.

Nos seus olhos Amor depositava

Um veneno tão doce, que, se olhava,

Atrás do seu ligeiro movimento,

Levava os corações e o pensamento.

Porém já de meu peito terno e brando

A dor fera e cruel me está chamando

A que, Algano, vos conte

Os suspiros que ao céu, ao vale, ao monte,

Inutilmente dados,

Foram da ingrata Ninfa desprezados.

A ânsia continuava,

Prosseguia o gemido, não cessava

Meu excessivo pranto:

Mas a dispêndio tanto,

Compravam meus ardores

Ingratas sem-razões, duros rigores.

Um mês quase corria,

E esperanças de um dia, e outro dia

Guiavam meu desvelo

Atrás do seu rigor, só por vencê-lo.

Ah! quem vozes tivera,

Algano meu, que referir pudera

Qual foi o excesso então daquele dia,

Quando cedendo à força da porfia

De um coração, que entre rigores arde,

Intérpretes seus olhos numa tarde,

Fez de não sei que incógnita piedade,

Que recatava menos a vontade!

Desde então... mas que emprendo!

Logo Amor aleivoso um golpe horrendo

Contra mim fulminou, roubando a glória

De tão alta vitória:

De Corebo à notícia,

Fez que chegasse o júbilo, a delícia

Que provava minha alma. O Pastor fero,

Mais cruel, mais severo,

A pena repartindo

Entre dous corações, ao gesto lindo

Da Ninfa mais mimosa

Ordena uma tristeza rigorosa;

E a mim, por maior pena,

Um desterro duríssimo me ordena.

Deixei-a desmaiada,

Triste, desconsolada,

Seu riso convertido em vivo pranto:

E eu (triste de mim!) martírio tanto

Suporto neste fúnebre retiro,

Que a meus ais, a meu pranto, a meu suspiro,

Enterneço os rochedos,

Movo as feras, os troncos e os penedos.

Quem me dissera, Algano,

Que o fado desumano,

Fingindo-se propício,

Me encaminhava a tanto precipício!

E já que foi tão duro,

Que com rosto perjuro

Me pôde conceder um breve instante

De alegria, e de gosto ao peito amante,

Que causa teve o fado

Para me não levar trás meu cuidado,

Conspirando a fereza

De Corebo cruel contra a firmeza

De minha adoração, deixando afável

Do golpe inexorável

Da Parca enfurecida,

Extinto o meu amor na minha vida?

Mas ah! Que em não matar-me,

O fado mais cruel se quis mostrar-me:

Assim mais se acredita

A fúria que meu peito debilita:

Pois louco e delirante

Vivo sempre em tormento. Astro inconstante,

Maligno, desigual, sempre em meu dano

(Ai, caríssimo Algano!)

Ordenará que eu seja

Vítima do rigor, e mais da inveja.