HEI DE AMAR-TE ATÉ A MORTE, QUER TU ME QUEIRAS, QUER NÃO; SEREI NO AMOR DESGRAÇA...

By Nicolau Tolentino de Almeida

Não fujo, podes rasgar

Este peito desgraçado;

Que o teu gesto retratado

Hás de, cruel, n’ele achar.

Posto que veja roubar

À Parca a tesoura forte,

E dar-me na vida corte,

Inda ouvirás, que te digo:

“Ingrata, não me desdigo,

Hei de amar-te até a morte.”

Vem, amor, autorizar

O sagrado juramento

De até ao final alento

Firmemente te adorar.

De joelhos, no altar

Co’a devida submissão

Resoluto ponho a mão;

Juro nas setas tremendas

De te amar, quer tu me ofendas,

Quer tu me queiras, quer não.

Amor co’as mãos apressadas

Ergue dos olhos a venda,

E pasma da jura horrenda.

Que assusta as aias sagradas.

“Eis as correntes pesadas.

Que te esperam, “diz irado.

Eu as aceito humilhado,

“Não, ó deus, não esmoreço

C’os ferros, posto conheço

Serei no amor desgraçado.”

A liberdade ultrajada

Lança-me a revés a vista;

Risca-me da honrada lista,

E chama-me escravo irada.

Não crimines indignada

Esta nobre sujeição.

Arrasto o férreo grilhão;

Mas por quem? Por Nize bela.

Ah! sim te deixo por ela;

Mas com discreta eleição.