HORAS DE SONO
Todos os dias, quando o sol empalidece
E expira em prantos d’oiro, amortalhado em rosas,
A minh’alma suspira, a minh’alma estremece,
Procurando abraçar figuras vaporosas!
Subo ao mirante e só, haurindo o cheiro intenso
Dos laranjais em flor, trazido pela aragem,
Embebo no horizonte um mesto olhar imenso,
A sonhar, a sonhar com feminina imagem!
De manso estranha mágoa o coração me invade
Por me sentir tão só! tão só... Então padeço,
E enche-me os olhos de água uma cruel saudade
De alguém que eu nunca vi, de alguém que eu não conheço!
Para me distrair, fumo de instante a instante,
Seguindo a ondulação do fumo no ar perdido:
Mas até nesse frouxo e brúmeo véu flutuante
Parece-me que vejo as rendas de um vestido!
Agita-me um desejo avassalante e forte
De amar alguém que seja a flor das criaturas,
Com um amor capaz de me trazer a morte,
Para servir de exemplo às gerações futuras!
Abrasa-me uma febre, uma vontade ardente
De apertar contra o seio uma lirial menina
E beijar silenciosa e apaixonadamente
A sua boca em flor, vermelha, e pequenina!
E sonho... Ouço uma voz que balbucia a medo...
Queixumes de mulher ungidos de meiguice...
E palavras de amor ciciadas em segredo,
E frases celestiais que nunca ninguém disse!
Não sei donde me vem, como um presente d’oiro,
Um delicado, um fino aroma de violeta...
Não, não é de violeta: é de um cabelo loiro!
É o perfume sutil nas tranças de Julieta!...
E, só, meu coração plange como uma lira,
Até que a noite esfolha os goivos da tristeza,
E a estrela do pastor fulgura qual safira
Na láctea veludez de um colo de princesa...