HORAS DE SONO

By Gustavo de Paula Teixeira

Todos os dias, quando o sol empalidece

E expira em prantos d’oiro, amortalhado em rosas,

A minh’alma suspira, a minh’alma estremece,

Procurando abraçar figuras vaporosas!

Subo ao mirante e só, haurindo o cheiro intenso

Dos laranjais em flor, trazido pela aragem,

Embebo no horizonte um mesto olhar imenso,

A sonhar, a sonhar com feminina imagem!

De manso estranha mágoa o coração me invade

Por me sentir tão só! tão só... Então padeço,

E enche-me os olhos de água uma cruel saudade

De alguém que eu nunca vi, de alguém que eu não conheço!

Para me distrair, fumo de instante a instante,

Seguindo a ondulação do fumo no ar perdido:

Mas até nesse frouxo e brúmeo véu flutuante

Parece-me que vejo as rendas de um vestido!

Agita-me um desejo avassalante e forte

De amar alguém que seja a flor das criaturas,

Com um amor capaz de me trazer a morte,

Para servir de exemplo às gerações futuras!

Abrasa-me uma febre, uma vontade ardente

De apertar contra o seio uma lirial menina

E beijar silenciosa e apaixonadamente

A sua boca em flor, vermelha, e pequenina!

E sonho... Ouço uma voz que balbucia a medo...

Queixumes de mulher ungidos de meiguice...

E palavras de amor ciciadas em segredo,

E frases celestiais que nunca ninguém disse!

Não sei donde me vem, como um presente d’oiro,

Um delicado, um fino aroma de violeta...

Não, não é de violeta: é de um cabelo loiro!

É o perfume sutil nas tranças de Julieta!...

E, só, meu coração plange como uma lira,

Até que a noite esfolha os goivos da tristeza,

E a estrela do pastor fulgura qual safira

Na láctea veludez de um colo de princesa...