HUMA TARDE ENTROU O POETA EM CASA DESTA DAMA, QUE ESTAVA NO INTERIOR ENOJOADA PE...
Babu: dai graças a Deus,
que um dia vos vi bonita,
não tendes mais que andar sempre
raivosa para ser linda.
Apareceste na sala
tão fera, e tão raivosinha,
que à fé, que vos tive medo,
sendo homem, e vós menina.
Vi a escarlata co’a neve
tão casada, e tão unida
na face do vosso rosto,
que sangrado o presumia.
Devia de ser vergonha,
que o vosso rosto então tinha
de ver-se ante quem o adora,
sendo vós de ingrata indigna.
Os olhos vibrando raios,
porque sempre raios vibra
o céu incendido em fogo,
ou encapotado em ira.
Agastastes-vos deveras,
vendo, que ali se tangia
em uma casa enojada
tão enlutada, e sentida.
Deus me não salve a minha alma,
se eu então vos conhecia,
porque vós não sois magreira,
e por ética vos tinha.
Levantei-me da cadeira
sem saber, o que fazia,
que me tinha perturbado
tão supitânea visita.
Destes-me quatro razões,
que eram quatro mil faíscas
do fogo da vossa raiva
em o meu erro incendidas
Inda assim vos respondi
dois verbos em cortesia,
que a beleza foi respeito,
e a fraqueza é comedida.
Fostes-vos lá para fora
vagarosamente altiva,
paráveis de quando em quando,
e olháveis de travessia.
Eu logo me pus na rua,
e perguntando a Matias
quem era aquela Senhora,
disse, que era minha Tia.
Fiquei entendendo então,
que vós só por seres vista
tomastes do meu cantar
aquele pé de cantiga.
Já não hei de cantar mais,
nem que o mande a minha amiga,
chorareis vossa dureza,
chorarei minha mofina.