HUMA TARDE ENTROU O POETA EM CASA DESTA DAMA, QUE ESTAVA NO INTERIOR ENOJOADA PE...

By Gregório de Matos Guerra

Babu: dai graças a Deus,

que um dia vos vi bonita,

não tendes mais que andar sempre

raivosa para ser linda.

Apareceste na sala

tão fera, e tão raivosinha,

que à fé, que vos tive medo,

sendo homem, e vós menina.

Vi a escarlata co’a neve

tão casada, e tão unida

na face do vosso rosto,

que sangrado o presumia.

Devia de ser vergonha,

que o vosso rosto então tinha

de ver-se ante quem o adora,

sendo vós de ingrata indigna.

Os olhos vibrando raios,

porque sempre raios vibra

o céu incendido em fogo,

ou encapotado em ira.

Agastastes-vos deveras,

vendo, que ali se tangia

em uma casa enojada

tão enlutada, e sentida.

Deus me não salve a minha alma,

se eu então vos conhecia,

porque vós não sois magreira,

e por ética vos tinha.

Levantei-me da cadeira

sem saber, o que fazia,

que me tinha perturbado

tão supitânea visita.

Destes-me quatro razões,

que eram quatro mil faíscas

do fogo da vossa raiva

em o meu erro incendidas

Inda assim vos respondi

dois verbos em cortesia,

que a beleza foi respeito,

e a fraqueza é comedida.

Fostes-vos lá para fora

vagarosamente altiva,

paráveis de quando em quando,

e olháveis de travessia.

Eu logo me pus na rua,

e perguntando a Matias

quem era aquela Senhora,

disse, que era minha Tia.

Fiquei entendendo então,

que vós só por seres vista

tomastes do meu cantar

aquele pé de cantiga.

Já não hei de cantar mais,

nem que o mande a minha amiga,

chorareis vossa dureza,

chorarei minha mofina.