I

By Gonçalves de Magalhães

Quando da noite o véu caliginoso

Do mundo me separa,

E da terra os limites encobrindo,

Vagar deixa minha alma no infinito,

Como um subtil vapor no aéreo espaço,

Uma angélica voz misteriosa

Em torno de mim soa,

Como o som de uma frauta harmoniosa,

Que em sagradas abóbadas reboa.

Donde vem esta voz? — Não é de virgem,

Que ao prazo dado o bem-amado aguarda,

E mavioso canto aos céus envia;

Esta voz tem mais grata melodia!

Donde vem esta voz? — Não é dos Anjos,

Que leves no ar adejam,

E com hinos alegres se festejam,

Quando uma alma inocente

Deixa do barro a habitação escura,

E na sidérea altura,

Como um astro fulgente

Penetra de Adonai o aposento;

A voz que escuto tem mais triste acento.

Como d’ara turícrema se exalça

Nuvem de grato aroma que a circunda,

E lenta vai subindo

Em faixas ondeantes,

Nos ares espargindo

Partículas fragrantes,

E sobe, e sobe, até no céu perder-se,

Tal de mim esta voz parece erguer-se.

Sim, esta voz do peito meu se exala!

Esta voz é minha alma que se espraia,

É minha alma que geme, e que murmura,

Como um órgão no templo solitário;

Minha alma, que o infinito só procura,

E em suspiros de amor a seu Deus se ala.

Como surdo até hoje

Fui eu a tão angélica harmonia?

Porventura minha alma muda esteve?

Ou foram porventura meus ouvidos

Até hoje rebeldes?

Perdoa-me, oh meu Deus, eu não sabia!

Eram Anjos do céu que me inspiravam,

E outras vozes meus lábios modulavam.

Castas Virgens da Grécia,

Que os sacros bosques habitais do Pindo!

Oh Numes tão fagueiros,

Que o berço me embalastes

Com risos lisonjeiros,

Assaz a infância minha fascinastes.

Guardai os louros vossos,

Guardai-os, sim, qu’eu hoje os renuncio.

Adeus, ficções de Homero!

Deixai, deixai minha alma

Em seus novos delírios engolfar-se,

Sonhar co’as terras do seu pátrio Rio.

Só de suspiros coroar-me quero,

De saudades, de ramos de cipreste;

Só quero suspirar, gemer só quero,

E um cântico formar co’os meus suspiros;

Assim pela aura matinal vibrado

O Anemocórdio, ao ramo pendurado,

Em cada corda geme,

E a selva peja de harmonia estreme.

Já nova Musa

Meu canto inspira;

Não mais empunho

Profana lira.

Minha alma, imita

A Natureza;

Quem vencer pode

Sua beleza?

De dia, e noite

Louva o Senhor;

Canta os prodígios

Do Criador.

Tu não escutas

Esta harmonia,

Que ao trono excelso

A terra envia?

Tu não reparas

Como o mar geme,

Como entre as folhas

O vento freme?

Como a ave chora,

A ovelha muge,

O trovão brama,

O leão ruge?

Cada qual canta

Ao seu teor,

Mas louvam todos

O seu Autor.

Da grande orquestra

Aumente o brilho

O Canto humano

Da razão filho.

Minha alma, aprende,

Louva a teu Deus;

Os teus suspiros

Envia aos céus.

Oh como é belo o céu azul sem nódoa!

Que puro amor nos corações ateia,

Como a pupila de engraçada virgem,

Que serena nos olha, e nos enleia.

Mas que imagem sublime a mim se antolha,

Com largas asas brancas como o cisne,

E roçagante toga, que se ondeia

Como flocos de neve alabastrina!

Uma harpa de ouro em suas mãos sustenta!

Oh que voz suavíssima e divina!

Oh que voz, que as paixões n’alma adormenta!

Vem, oh Gênio do céu filho!

Vem, oh Anjo d’harmonia!

Cuja voz é mais suave,

Mais fragrante que a ambrosia!

Teu rosto vence em beleza

Ao sol no zênite luzente;

Teu largo manto é mais puro

Do que a lua alvinitente.

As asas, que te suspendem,

São mais ligeiras que o vento;

São mais terríveis que os raios,

Que giram no firmamento.

Tua fronte não se adorna

Com flores que o prado gera;

Sobre teus cabelos de ouro

Brilha de fogo uma esfera.

Teus pés a terra não tocam,

A teus pés a terra é dura;

Sobre aromas te equilibras

Recendentes de frescura.

O sol, a lua, as estrelas

São fanais que te iluminam,

São corpos a quem dás vida,

E ante teus passos se inclinam.

Os acordos de tua harpa

Todos os astros ecoam;

Reanima-se o Universo,

Quando as suas cordas soam.

Vem, oh Anjo, ungir meus lábios;

Traze-me uma harpa dos céus;

Ao som dela subir quero

Meus suspiros até Deus!

Quando no Oriente roxear a Aurora,

Como um purpúreo, auribordado manto,

Que ao Rei da luz o pavilhão decora,

E as saltitantes aves pelos ramos

Da madrugada o hino gorjearem,

Tua voz, oh minha alma, une a seu canto,

E as graças do Senhor cantando exora.

Quando a noite envolver a Natureza

Em tenebroso crepe; e sobre a terra

As asas desdobrar morno silêncio;

Nessas plácidas horas de repouso,

Em que tudo descansa, exceto o Oceano,

Que arqueja, e espuma em solitária praia,

Vizinhos ermos com seus ais pejando,

Como um preso que geme, e que debalde

Da prisão contra os muros se arremessa;

Tu também, como a lua, vigilante

Nessas propícias horas, oh minha alma,

Tua voz gemebunda exala, e une

À voz do Oceano, à voz d’ave noturna.

Enquanto estás sobre a terra,

Como no exílio o proscrito,

Canta como ele, que o canto

Refrigera o peito aflito.

Canta, que os Anjos te escutam,

E os Anjos à terra descem,

A escutar esses hinos,

Que para Deus almas tecem.

Canta a todos os momentos,

Canta co’a noite, e co’o dia;

E o teu derradeiro expiro

Seja ainda uma harmonia.