I

By Laurindo José da Silva Rabelo

O lume de sinistro fogo estranho

Que em meu olhar se acende;

A nuvem que de mágoas carregada

No rosto se me estende;

Esta agonia acerba que repassa

Os sons da minha lira;

Este céptico altivo horror ao mundo

Que em tudo meu respira;

Estas rugas, que trago sobre as faces,

Os modos distraídos,

A constante desordem do semblante,

Dos gestos, dos vestidos;

Revela tudo um segredo,

Que o mundo não sabe ler;

Segredo, que só com pranto

É que se pode escrever;

Segredo, que em meu futuro

Negro anátema cuspiu;

Segredo, que seduziu-me;

Segredo que me traiu.

Letras escritas com pranto

Sei que apagadas serão!

Sei que um segredo de mágoas

Nunca merece atenção!

Mas não importa; hoje quero

O meu segredo escrever;

Que guardado por mais tempo

Talvez me faça morrer.