I

By Luís Nicolau Fagundes Varela

Árvore negra, pérfida, execranda!

Árvore infausta, cujos lisos pomos,

Loirejando no fundo aveludado

De macia espessura, seduziram

A nobre essência dos primeiros seres!

Cuja sombra sinistra e deletéria

Cobriu de luto e dor o leito ameno

Dos mais castos amores do universo!

Cuja seiva compõe-se das mais fortes

Peçonhas conhecidas! Cujos galhos

Representam os símbolos tremendos

Dos mais cruéis e lúgubres suplícios,

Que hão inventado as tiranias todas!...

Árvore negra, pérfida, execranda,

Árvore abrigo do maldito gênio!

Não! Não és tu, que vejo nos meus sonhos,

Abrindo os vastos, protetores ramos,

Por essas regiões azuis, serenas,

Onde o nome de Deus fulgura escrito

Em rutilantes, assombrosas letras!

Não és tu, não és tu, em cujas frondes

Brincam os querubins de plumas de ouro,

Ora ledos descendo, ora subindo,

Tais como vira em sonho milagroso

O neto de Abraão, adormecido

Sobre uma dura pedra no deserto!

Não és tu, que nos tempos de desgraça,

De cruas provações, os povos buscam

Qual asilo de paz e de justiça!

Árvore da ciência e do infortúnio,

Tu não nos dás os frutos da Esperança,

E nem da Fé o bálsamo suave,

E nem o puro mel da Caridade!

Junto de ti a morte ergueu seu trono,

Em teus galhos fatais, em teus raminhos

Não geme a rola, — colibri não brinca,

Não pousa a abelha, — o rouxinol não canta,

Nem adejam travessas borboletas!

Amam-te, apenas, lutuosos mochos,

Larvas imundas, sanguinários corvos:

Visco de maldição transpiras toda!

Não; não entoarei meus pobres hinos

À sombra tua que Satã protege!

Nunca! Nunca!...

Mas, ai! como propicia,

Rodeada de glórias e esplendores,

Estendes no infinito os almos braços,

Oh árvore do bem e da verdade!

Oh árvore da vida e do futuro!

Como ao redor de ti revivem belos

Os justos que passaram, — as risonhas

Chusmas de loiros anjos, e as falanges

De claríssimas virgens, que a inocência

De grinaldas cingiu, imarcescíveis!

Quantos gratos idílios, quantas odes,

Repassadas de amor e de ternura,

Quanta excelsa harmonia, não repete

Tudo o que existe, oh Cruz, três vezes Santa,

À sombra de teu vulto abençoado!