I
Árvore negra, pérfida, execranda!
Árvore infausta, cujos lisos pomos,
Loirejando no fundo aveludado
De macia espessura, seduziram
A nobre essência dos primeiros seres!
Cuja sombra sinistra e deletéria
Cobriu de luto e dor o leito ameno
Dos mais castos amores do universo!
Cuja seiva compõe-se das mais fortes
Peçonhas conhecidas! Cujos galhos
Representam os símbolos tremendos
Dos mais cruéis e lúgubres suplícios,
Que hão inventado as tiranias todas!...
Árvore negra, pérfida, execranda,
Árvore abrigo do maldito gênio!
Não! Não és tu, que vejo nos meus sonhos,
Abrindo os vastos, protetores ramos,
Por essas regiões azuis, serenas,
Onde o nome de Deus fulgura escrito
Em rutilantes, assombrosas letras!
Não és tu, não és tu, em cujas frondes
Brincam os querubins de plumas de ouro,
Ora ledos descendo, ora subindo,
Tais como vira em sonho milagroso
O neto de Abraão, adormecido
Sobre uma dura pedra no deserto!
Não és tu, que nos tempos de desgraça,
De cruas provações, os povos buscam
Qual asilo de paz e de justiça!
Árvore da ciência e do infortúnio,
Tu não nos dás os frutos da Esperança,
E nem da Fé o bálsamo suave,
E nem o puro mel da Caridade!
Junto de ti a morte ergueu seu trono,
Em teus galhos fatais, em teus raminhos
Não geme a rola, — colibri não brinca,
Não pousa a abelha, — o rouxinol não canta,
Nem adejam travessas borboletas!
Amam-te, apenas, lutuosos mochos,
Larvas imundas, sanguinários corvos:
Visco de maldição transpiras toda!
Não; não entoarei meus pobres hinos
À sombra tua que Satã protege!
Nunca! Nunca!...
Mas, ai! como propicia,
Rodeada de glórias e esplendores,
Estendes no infinito os almos braços,
Oh árvore do bem e da verdade!
Oh árvore da vida e do futuro!
Como ao redor de ti revivem belos
Os justos que passaram, — as risonhas
Chusmas de loiros anjos, e as falanges
De claríssimas virgens, que a inocência
De grinaldas cingiu, imarcescíveis!
Quantos gratos idílios, quantas odes,
Repassadas de amor e de ternura,
Quanta excelsa harmonia, não repete
Tudo o que existe, oh Cruz, três vezes Santa,
À sombra de teu vulto abençoado!