Idealizações

By João da Cruz e Sousa

Os meus desejos perdem-se de manso

Nesse teu colo alvíssimo e celeste

Que eu de adorar nunca os meus olhos canso.

Não sei que paz olímpica me deste,

Que bonançoso e plácido remanso,

Que este meu ser é como um prado agreste,

Onde nas frescas, múrmuras folhagens,

Do sol pagão o ouro resplendente

Cai, qual da luz fulgentes homenagens.

Não sei que brilho ou que clarão ardente

Deste à minh’alma! e que sutis aragens

Emprestaste ao batel onipresente

Destes meus sonhos que ei-lo vai-se agora,

Coroando de pâmpanos e rosas,

Pelo oceano de cristal da aurora.

Vai navegando para as luminosas

Regiões da vida esplêndida e sonora

Que tens sob essas pálpebras formosas.

Mas uma vez chegando ao porto amado,

Porto de luz, sem noites nem escolhos...

Se esse batel achar-se naufragado,

Será, meu amor, nos mares dos teus olhos.