II

By Antônio Gonçalves Dias

Em fundos vasos d’alvacenta argila

Ferve o cauim;

Enchem-se as copas, o prazer começa,

Reina o festim.

O prisioneiro, cuja morte anseiam,

Sentado está,

O prisioneiro, que outro sol no ocaso

Jamais verá!

A dura corda, que lhe enlaça o colo,

Mostra-lhe o fim

Da vida escura, que será mais breve

Do que o festim!

Contudo os olhos d’ignóbil pranto

Secos estão;

Mudos os lábios não descerram queixas

Do coração.

Mas um martírio, que encobrir não pode,

Em rugas faz

A mentirosa placidez do rosto

Na fronte audaz!

Que tens, guerreiro? Que temor te assalta

No passo horrendo?

Honra das tabas que nascer te viram,

Folga morrendo.

Folga morrendo; porque além dos Andes

Revive o forte,

Que soube ufano contrastar os medos

Da fria morte.

Rasteira grama, exposta ao sol, à chuva,

Lá murcha e pende:

Somente ao tronco, que devassa os ares,

O raio ofende!

Que foi? Tupã mandou que ele caísse,

Como viveu;

E o caçador que o avistou prostrado

Esmoreceu!

Que temes, ó guerreiro? Além dos Andes

Revive o forte,

Que soube ufano contrastar os medos

Da fria morte.