II

By Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos

Foi no horror dessa noite tão funérea

Que eu descobri, maior talvez que Vinci,

Com a força visualística do lince,

A falta de unidade na matéria!

Os esqueletos desarticulados,

Livres do acre fedor das carnes mortas,

Rodopiavam, com as brancas tíbias tortas,

Numa dança de números quebrados!

Todas as divindades malfazejas,

Siva e Arimã, os duendes, o In e os trasgos,

Imitando o barulho dos engasgos,

Davam pancadas no adro das igrejas.

Nessa hora de monólogos sublimes,

A companhia dos ladrões da noite,

Buscando uma taverna que os açoite,

Vai pela escuridão pensando crimes.

Perpetravam-se os atos mais funestos,

E o luar, da cor de um doente de icterícia,

Iluminava, a rir, sem pudicícia,

A camisa vermelha dos incestos.

Ninguém, de certo, estava ali, a espiar-me,

Mas um lampião, lembrava ante o meu rosto,

Um sugestionador olho, ali posto

De propósito, para hipnotizar-me!

Em tudo, então, meus olhos distinguiram,

Da miniatura singular de uma aspa

À anatomia mínima da caspa,

Embriões de mundos que não progrediram!

Pois quem não vê aí, em qualquer rua,

Com a fina nitidez de um claro jorro,

Na paciência budista de cachorro

A alma embrionária que não continua?!

Ser cachorro! Ganir incompreendidos

Verbos! Querer dizer-nos que não finge,

E a palavra embrulhar-se na laringe,

Escapando-se apenas em latidos!

Despir a putrescível forma tosca,

Na atra dissolução que tudo inverte,

Deixar cair sobre a barriga inerte

O apetite necrófago da mosca!

A alma dos animais! Pego-a, distingo-a,

Acho-a nesse interior duelo secreto

Entre a ânsia de um vocábulo completo

E uma expressão que não chegou à língua!

Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos,

Nos antiperistálticos abalos

Que produzem nos bois e nos cavalos

A contração dos gritos instintivos!

Tempo viria, em que, daquele horrendo

Caos de corpos orgânicos disformes

Rebentariam cérebros enormes,

Como bolhas febris de água, fervendo!

Nessa época que os sábios não ensinam,

A pedra dura, os montes argilosos

Criariam feixes de cordões nervosos

E o neuroplasma dos que raciocinam!

Almas pigmeias! Deus subjuga-as, cinge-as

À imperfeição! Mas vem o Tempo, e vence-O,

E o meu sonho crescia no silêncio,

Maior que as epopeias carolíngias!

Era a revolta trágica dos tipos

Ontogênicos mais elementares,

Desde os foraminíferos dos mares

À grei liliputiana dos pólipos.

Todos os personagens da tragédia,

Cansados de viver na paz de Buda,

Pareciam pedir com a boca muda

A ganglionária célula intermédia.

A planta que a canícula ígnea torra,

E as coisas inorgânicas mais nulas

Apregoavam encéfalos, medulas

Na alegria guerreira da desforra!

Os protistas e o obscuro acervo rijo

Dos espongiários e dos infusórios

Recebiam com os seus órgãos sensórios

O triunfo emocional do regozijo!

E apesar de já ser assim tão tarde,

Aquela humanidade parasita,

Como um bicho inferior, berrava, aflita,

No meu temperamento de covarde!

Mas, refletindo, a sós, sobre o meu caso,

Vi que, igual a um amniota subterrâneo,

Jazia atravessada no meu crânio

A intercessão fatídica do atraso!

A hipótese genial do

Me estrangulava o pensamento guapo,

E eu me encolhia todo como um sapo

Que tem um peso incômodo por cima!

Nas agonias do delirium-tremens,

Os bêbedos alvares que me olhavam,

Com os copos cheios esterilizavam

A substância prolífica dos sêmens!

Enterravam as mãos dentro das goelas,

E sacudidos de um tremor indômito

Expeliam, na dor forte do vômito,

Um conjunto de gosmas amarelas.

Iam depois dormir nos lupanares

Onde, na glória da concupiscência,

Depositavam quase sem consciência

As derradeiras forças musculares.

Fabricavam destarte os bastodermas,

Em cujo repugnante receptáculo

Minha perscrutação via o espetáculo

De uma progênie idiota de palermas.

Prostituição ou outro qualquer nome,

por tua causa, embora o homem te aceite,

É que as mulheres ruins ficam sem leite

E os meninos sem pai morrem de fome!

Por que há de haver aqui tantos enterros?

Lá no “Engenho” também, a morte é ingrata...

Há o malvado carbúnculo que mata

A sociedade infante dos bezerros!

Quantas moças que o túmulo reclama!

E após a podridão de tantas moças,

Os porcos espojando-se nas poças

Da virgindade reduzida à lama!

Morte, ponto final da última cena,

Forma difusa da matéria embele,

Minha filosofia te repele,

Meu raciocínio enorme te condena!

Diante de ti, nas catedrais mais ricas,

Rolam sem eficácia os amuletos,

Oh! Senhora dos nossos esqueletos

E das caveiras diárias que fabricas!

E eu desejava ter, numa ânsia rara,

Ao pensar nas pessoas que perdera,

A inconsciência das máscaras de cera

Que a gente prega, com um cordão, na cara!

Era um sonho ladrão de submergir-me

Na vida universal, e, em tudo imerso,

Fazer da parte abstrata do Universo,

Minha morada equilibrada e firme!

Nisto, pior que o remorso do assassino,

Reboou, tal qual, num fundo de caverna,

Numa impressionadora voz interna,

O eco particular do meu Destino;