II

By Laurindo José da Silva Rabelo

Mandado do inferno

Por ímpio destino,

Um gênio mali’no

No berço me viu —

E após um instante

Haver-me encarado

Com gesto irritado,

O Gênio — o meu fado

Traçando — sorriu.

Sorriu-se... e mudados

No mesmo momento

Que o Gênio cruento,

Cruento me viu,

Em negra tristeza,

Meus gostos findaram;

Meus lábios murcharam;

Meus ais começaram;

Meu pranto caiu.

No peito inda verde

Secou-se a ventura

Daquela fé pura

Que a infância nos dá;

No espelho onde via

Em êxtase santo

Os risos, o encanto,

De um mundo, que há tanto

Não sei onde está.

Em dita tão pura

Minh’alma exultava,

E quanto alcançava

Sabia explicar;

Que, além de dar crença

A tudo que ouvia,

Por certa magia,

As cousas que via,

Sentia falar.

Se às vezes tentava

Brincar com as flores,

Revendo os lavores

De um vasto jardim,

A brisa me dava,

No trânsito leve,

Um cântico breve,

Escrito na neve

De um casto jasmim.

Fugaz borboleta

Nas asas de ouro

Imenso tesouro

Deixava-me ver;

E, qual um avaro,

Sedento, inquieto,

Com ardido afeto

Atrás do inseto

Me punha a correr.

Qual boca de ninfa

Há pouco desperta,

Se rosa entreaberta

Prendia louçã,

Segredos da infância

A flor me contava,

Q’eu só escutava,

E, rindo, exclamava: —

Tu és minha irmã!...

À vista do oceano,

Imenso, ruidoso,

Que quadro assombroso

Fez meu ideal!...

Em êxtase, longo

Vi nele espantado,

Rugindo deitado,

Um monstro azulado

D’enorme cristal.

Em crua e constante,

Horríssona guerra,

In’migo da terra,

Pintou-se-me o mar —

Que fero com as ondas

Na praia batia,

E aflito bramia,

Porque não podia

A praia arredar.

Na concha celeste

Se os olhos fitava,

Lá novos achava

Encantos também;

Nos astros eu via

De anjinhos um bando,

Que, o corpo ocultando,

Me estavam olhando

De um mundo de além.

Eu via na lua

A casa encantada,

De luz prateada

Fugindo no ar;

Asilo somente

Da fada querida,

Que vinha escondida

A gente nascida

De noite embalar.

O sol eu amava

Da tarde na hora;

Amava-o d’aurora

No fresco arrebol.

E quando a tais horas

No mar se escondia,

P’ra ele me ria,

Julgando que via

Adeuses do sol.