II

By Luís Nicolau Fagundes Varela

Auriflama divina! Insígnia eterna!

Tu, que espancando as sombras da mentira

Ao grande imperador mostraste outrora

Do verdadeiro Deus o santuário;

Tu que do luso chefe às hostes bravas

Apontaste a vitória contra os servos

Dos mouriscos heptarcas, e formosa

Nos céus ocidentais, entre as estrelas

Brilhaste aos olhos do argonauta ilustre,

Mostrando a terra que tomou teu nome;

Tu, que proteges na soidão dos mares

A triste nau batida pelos ventos;

E dos átrios de pobres presbitérios,

Dos campanários de pomposos templos,

Consolas o cansado peregrino,

Quando os montes da pátria avista ao longe;

Tu, que nos descampados santificas

O leito do infeliz, que mão traidora

Feriu em noite escura, e o ermo sítio

Onde caiu exausto o viageiro;

Que da rósea criança o berço guardas,

E o seio da donzela, — e a régia fronte;

O catre do operário, e a dura enxerga

Do mísero cativo!... Oh! Cruz suprema!

Permite que o mais rude entre os cantores,

O mais rasteiro ser que te há beijado,

Dobre o joelho junto de teu soco,

E travando de mísero instrumento

Celebre a vinda suspirada, e os atos

Grandiosos, sublimes, — e os milagres,

As egrégias doutrinas, — os martírios

Atrozes, inauditos, — e a sagrada

Ressurreição de Jesus Cristo, o Filho

Do Onipotente Deus! E contemplando

O longo espaço que separa o berço

Humilde de Belém, do escuro cimo

Do pavoroso Gólgota, relate

As maravilhas que aprendeu, criança,

Dos santos lábios de ministro santo,

Nas amplas solidões do Novo Mundo!

Que volva aos belos tempos que passaram,

E desvende o painel das matas virgens,

E mostre as multidões das grandes praças,

O ajuntamento de selvagens tribos

Do maná do Evangelho sequiosas,

Em frente da cabana hospitaleira

De sábio missionário, em idas eras,

Quando o colosso — América — sorria,

Apertando feliz nos meigos braços

A imagem de Jesus — o Mestre, e a Bíblia.