II
Auriflama divina! Insígnia eterna!
Tu, que espancando as sombras da mentira
Ao grande imperador mostraste outrora
Do verdadeiro Deus o santuário;
Tu que do luso chefe às hostes bravas
Apontaste a vitória contra os servos
Dos mouriscos heptarcas, e formosa
Nos céus ocidentais, entre as estrelas
Brilhaste aos olhos do argonauta ilustre,
Mostrando a terra que tomou teu nome;
Tu, que proteges na soidão dos mares
A triste nau batida pelos ventos;
E dos átrios de pobres presbitérios,
Dos campanários de pomposos templos,
Consolas o cansado peregrino,
Quando os montes da pátria avista ao longe;
Tu, que nos descampados santificas
O leito do infeliz, que mão traidora
Feriu em noite escura, e o ermo sítio
Onde caiu exausto o viageiro;
Que da rósea criança o berço guardas,
E o seio da donzela, — e a régia fronte;
O catre do operário, e a dura enxerga
Do mísero cativo!... Oh! Cruz suprema!
Permite que o mais rude entre os cantores,
O mais rasteiro ser que te há beijado,
Dobre o joelho junto de teu soco,
E travando de mísero instrumento
Celebre a vinda suspirada, e os atos
Grandiosos, sublimes, — e os milagres,
As egrégias doutrinas, — os martírios
Atrozes, inauditos, — e a sagrada
Ressurreição de Jesus Cristo, o Filho
Do Onipotente Deus! E contemplando
O longo espaço que separa o berço
Humilde de Belém, do escuro cimo
Do pavoroso Gólgota, relate
As maravilhas que aprendeu, criança,
Dos santos lábios de ministro santo,
Nas amplas solidões do Novo Mundo!
Que volva aos belos tempos que passaram,
E desvende o painel das matas virgens,
E mostre as multidões das grandes praças,
O ajuntamento de selvagens tribos
Do maná do Evangelho sequiosas,
Em frente da cabana hospitaleira
De sábio missionário, em idas eras,
Quando o colosso — América — sorria,
Apertando feliz nos meigos braços
A imagem de Jesus — o Mestre, e a Bíblia.