III

By Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos

“Homem! por mais que a Ideia desintegres,

Nessas perquisições que não têm pausa,

Jamais, magro homem, saberás a causa

De todos os fenômenos alegres!

Em vão, com a bronca enxada árdega, sondas

A estéril terra, e a hialina lâmpada oca,

Trazes, por perscrutar (oh! ciência louca!)

O conteúdo das lágrimas hediondas.

Negro e sem fim é esse em que te mergulhas

lugar do Cosmos, onde a dor infrene

É feita como é feito o querosene

Nos recôncavos úmidos das hulhas!

Porque, para que a Dor perscrutes, fora

Mister que, não como és, em síntese, antes

Fosses, a refletir teus semelhantes,

A própria humanidade sofredora!

A universal complexidade é que Ela

Compreende. E se, por vezes, se divide,

Mesmo ainda assim, seu todo não reside

No quociente isolado da parcela!

Ah! Como o ar imortal a Dor não finda!

Das papilas nervosas que há nos tatos

Veio e vai desde os tempos mais transatos

Para outros tempos que hão de vir ainda!

Como o machucamento das insônias

Te estraga, quando toda a estuada Ideia

Dás ao sôfrego estudo da ninfeia

E de outras plantas dicotiledôneas!

A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua

Que da ígnea flama bruta, estriada, espirra;

A formação molecular da mirra,

O cordeiro simbólico da Páscoa;

As rebeladas cóleras que rugem

No homem civilizado, e a ele se prendem

Como às pulseiras que os mascates vendem

A aderência teimosa da ferrugem;

O orbe feraz que bastos tojos acres

Produz; a rebelião, que na batalha,

Deixa os homens deitados, sem mortalha,

Na sangueira concreta dos massacres;

Os sanguinolentíssimos chicotes

Da hemorragia; as nódoas mais espessas,

O achatamento ignóbil das cabeças,

Que ainda degrada os povos hotentotes;

O Amor e a Fome, a fera ultriz que o fojo

Entra, à espera que a mansa vítima o entre,

— Tudo que gera no materno ventre

A causa fisiológica do nojo;

As pálpebras inchadas na vigília,

As aves moças que perderam a asa,

O fogão apagado de uma casa,

Onde morreu o chefe da família;

O trem particular que um corpo arrasta

Sinistramente pela via férrea,

A cristalização da massa térrea,

O tecido da roupa que se gasta;

A água arbitrária que hiulcos caules grossos

Carrega e come; as negras formas feias

Dos aracnídeos e das centopeias,

O fogo-fátuo que ilumina os ossos;

As projeções flamívomas que ofuscam,

Como uma pincelada rembrandtesca,

A sensação que uma coalhada fresca

Transmite às mãos nervosas dos que a buscam;

O antagonismo de Tífon e Osíris,

O homem grande oprimindo o homem pequeno,

A lua falsa de um parasseleno,

A mentira meteórica do arco-íris;

Os terremotos que, abalando os solos,

Lembram paióis de pólvora explodindo,

A rotação dos fluidos produzindo

A depressão geológica dos pólos;

O instinto de procriar, a ânsia legítima

Da alma, afrontando ovante aziagos riscos,

O juramento dos guerreiros priscos

Metendo as mãos nas glândulas da vítima;

As diferenciações que o psicoplasma

Humano sofre na mania mística,

A pesada opressão característica

Dos dez minutos de um acesso de asma;

E, (conquanto contra isto ódios regougues)

A utilidade fúnebre da corda

Que arrasta a rês, depois que a rês engorda,

À morte desgraçada dos açougues...

Tudo isto que o terráqueo abismo encerra

Forma a complicação desse barulho

Travado entre o dragão do humano orgulho

E as forças inorgânicas da terra!

Por descobrir tudo isso, embalde cansas!

Ignoto é o gérmen dessa força ativa

Que engendra, em cada célula passiva,

A heterogeneidade das mudanças!

Poeta, feto malsão, criado com os sucos

De um leite mau, carnívoro asqueroso,

Gerado no atavismo monstruoso

Da alma desordenada dos malucos;

Última das criaturas inferiores

Governada por átomos mesquinhos,

Teu pé mata a uberdade dos caminhos

E esteriliza os ventres geradores!

O áspero mal que a tudo, em torno, trazes,

Análogo é ao que, negro e a seu turno,

Traz o ávido filóstomo noturno

Ao sangue dos mamíferos vorazes!

Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes

A perfeição dos seres existentes,

Hás de mostrar a cárie dos teus dentes

Na anatomia horrenda dos detalhes!

O Espaço — esta abstração spencereana

Que abrange as relações de coexistência

É só! Não tem nenhuma dependência

Com as vértebras mortais da espécie humana!

As radiantes elipses que as estrelas

Traçam, e ao espectador falsas se antolham

São verdades de luz que os homens olham

Sem poder, no entretanto, compreendê-las.

Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes,

Que essa mão, de esqueléticas falanges,

Dentro dessa água que com a vista abranges,

Também prova o princípio de Arquimedes!

A fadiga feroz que te esbordoa

Há de deixar-te essa medonha marca,

Que, nos corpos inchados de anasarca,

Deixam os dedos de qualquer pessoa!

Nem terás no trabalho que tiveste

A misericordiosa toalha amiga,

Que afaga os homens doentes de bexiga

E enxuga, à noite, as pústulas da peste!

Quando chegar depois a hora tranquila,

Tu serás arrastado, na carreira,

Como um cepo inconsciente de madeira

Na evolução orgânica da argila!

Um dia comparado com um milênio

Seja, pois, o teu último Evangelho...

É a evolução do novo para o velho

E do homogêneo para o heterogêneo!

Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo

A apodrecer!... És poeira e embalde vibras!

O corvo que comer as tuas fibras

Há de achar nelas um sabor amargo!”