III
Já desperta o val’formoso,
todo em galas, jubiloso,
todo em risos festivais;
fresco orvalho rega as flores,
mais frescura, mais odores
espalhando nos rosais.
Já se vão pastores ledos,
ensaiando mil folguedos,
ao Deus Menino adorar;
uns levavam o mel puro,
outros o fruto maduro
do seu viçoso pomar.
Aqui, a infância contente
carregando o leite quente
da mansa ovelha dileta;
Ali — pastoras singelas
de suas rosas mais belas
levando oferenda seleta.
Além, um velho curvado
sobre nodoso cajado,
alvo cordeiro levava;
a seu lado o moço, lesto
meigos pombinhos num cesto
prazenteiro carregava.
E à gruta ditosa
humildes chegaram;
no chão se prostraram
ao Deus adorando,
das puras ofertas
os mimos singelos
com santos desvelos
ao Cristo ofertando.
Lá da celeste abóbada fulgente,
eis um coro d’arcanjos vem baixando,
hinos sacros de glórias entoando
ante o berço do Deus Onipotente:
“Glória a Deus nas alturas! Paz na terra,
que a Luz do Céu as trevas dissipou,
mais brilhante que o dia radioso
que d’ aurora serena despertou.
Glória a Deus nas alturas! Paz aos homens,
que do mundo nasceu o redentor!
Graças mil sobre a terra já derrama
em mil bênçãos de amor o Eterno Amor!
Formosa no espaço
brilhava uma estrela
mais pura, mais bela
que a estrela do albor;
por ela guiados
os reis caminharam
e ao berço chegaram
de Deus Salvador!
E lá, ante o exemplo
de um Deus entre os pobres,
os magos, tão nobres,
pasmados estão;
e a mirra, o incenso,
o ouro mais fino
lá dão ao Menino,
c’o as frontes no chão!
Celeste ventura
de um gozo inefável,
da Mãe adorável
o seio inundava;
tão bela fitando
seu meigo Jesus,
de amor nesta Luz
seus olhos banhava.
José, piedoso,
no solo prostrado,
medita, enlevado,
mistério tão fundo;
e os anjos celebram
nas liras supernas
as glórias eternas
à face do mundo!
Senhor! — não pode a lira humilde e rude
do Messias cantar a glória ingente
que o Céu nas harpas d’ouro celebrava;
tem de um mortal as vozes poderiam
jamais dizer a divinal ventura
que de Maria a alma transportava.
Porém, se meu espírito enlevado
à doce luz da Fé contempla absorto
o presépio ditoso de Belém,
crendo ouvir desse val’abençoado
doces ecos de um hino descantado,
deixa-o, da lira aos sons cantar também:
“Glória ao Excelso Pai Onipotente,
Glória ao Filho do mundo Redentor,
Glória ao Espírito Santo Onisciente,
Glória à Mãe Divinal do Salvador!”