III

By Delminda Silveira de Sousa

Já desperta o val’formoso,

todo em galas, jubiloso,

todo em risos festivais;

fresco orvalho rega as flores,

mais frescura, mais odores

espalhando nos rosais.

Já se vão pastores ledos,

ensaiando mil folguedos,

ao Deus Menino adorar;

uns levavam o mel puro,

outros o fruto maduro

do seu viçoso pomar.

Aqui, a infância contente

carregando o leite quente

da mansa ovelha dileta;

Ali — pastoras singelas

de suas rosas mais belas

levando oferenda seleta.

Além, um velho curvado

sobre nodoso cajado,

alvo cordeiro levava;

a seu lado o moço, lesto

meigos pombinhos num cesto

prazenteiro carregava.

E à gruta ditosa

humildes chegaram;

no chão se prostraram

ao Deus adorando,

das puras ofertas

os mimos singelos

com santos desvelos

ao Cristo ofertando.

Lá da celeste abóbada fulgente,

eis um coro d’arcanjos vem baixando,

hinos sacros de glórias entoando

ante o berço do Deus Onipotente:

“Glória a Deus nas alturas! Paz na terra,

que a Luz do Céu as trevas dissipou,

mais brilhante que o dia radioso

que d’ aurora serena despertou.

Glória a Deus nas alturas! Paz aos homens,

que do mundo nasceu o redentor!

Graças mil sobre a terra já derrama

em mil bênçãos de amor o Eterno Amor!

Formosa no espaço

brilhava uma estrela

mais pura, mais bela

que a estrela do albor;

por ela guiados

os reis caminharam

e ao berço chegaram

de Deus Salvador!

E lá, ante o exemplo

de um Deus entre os pobres,

os magos, tão nobres,

pasmados estão;

e a mirra, o incenso,

o ouro mais fino

lá dão ao Menino,

c’o as frontes no chão!

Celeste ventura

de um gozo inefável,

da Mãe adorável

o seio inundava;

tão bela fitando

seu meigo Jesus,

de amor nesta Luz

seus olhos banhava.

José, piedoso,

no solo prostrado,

medita, enlevado,

mistério tão fundo;

e os anjos celebram

nas liras supernas

as glórias eternas

à face do mundo!

Senhor! — não pode a lira humilde e rude

do Messias cantar a glória ingente

que o Céu nas harpas d’ouro celebrava;

tem de um mortal as vozes poderiam

jamais dizer a divinal ventura

que de Maria a alma transportava.

Porém, se meu espírito enlevado

à doce luz da Fé contempla absorto

o presépio ditoso de Belém,

crendo ouvir desse val’abençoado

doces ecos de um hino descantado,

deixa-o, da lira aos sons cantar também:

“Glória ao Excelso Pai Onipotente,

Glória ao Filho do mundo Redentor,

Glória ao Espírito Santo Onisciente,

Glória à Mãe Divinal do Salvador!”