III
Mas esse tempo de encantos,
Que nunca julguei ter fim,
Não é hoje para mim
Mais que morta e seca flor!...
Do gênio mau completou-se
A primeira profecia:
Era o que o Gênio dizia
No seu riso mofador.
A natureza calou-se
Desde que o Gênio me viu;
Minha alma inteira sentiu
Repentina mutação,
Dei por mim em terra estranha;
Tive novos pensamentos;
Tive novos sentimentos;
Criei novo coração.
Visão do Céu... não — da terra;
Não podia ser do Céu;
Que Deus no domínio seu
Falsos arcanjos não quer;
Visão, que da natureza
Toda a graça revestia,
Por desdita vi um dia
Num semblante de mulher.
Tinha a visão tal encanto,
Que, ao vê-la, absorto fiquei;
Tanto, que não escutei
O profundo soluçar
Da inocência, que, sentindo
Da paixão a ardente calma,
Abraçada com minh’alma
Se despedia a chorar.
Vida de louco passei;
Mas achei nessa loucura
Tanto bem — tanta ventura,
Quais nunca a razão me deu;
Que, se a razão da verdade
Tem os claros resplendores, —
Amor o reino das flores
Tem todo inteiro por seu.
E a esta senda estrepada,
Que à morte os seres conduz,
O que lhe importa uma luz,
Se a não tapiza uma flor?
E se amor, além de flores,
Também possui um clarão,
Antes amor sem razão,
Do que razão sem amor.
Mas foi-se o tempo de risos
Da minha feliz loucura!...
Libei o fel da amargura
No mel de um beijo traidor!...
Do Gênio mau completou-se
A segunda profecia:
Era o que o Gênio dizia
No seu riso mofador.
Dessa profunda chaga resta ainda
Dorida cicatriz: a mão do tempo
Talvez cure-a por fim; mas não tão cedo,
Que inda verte de si pútrido sangue,
Se a magoam cruéis reminiscências
De quadra tão feliz.