III

By Laurindo José da Silva Rabelo

Mas esse tempo de encantos,

Que nunca julguei ter fim,

Não é hoje para mim

Mais que morta e seca flor!...

Do gênio mau completou-se

A primeira profecia:

Era o que o Gênio dizia

No seu riso mofador.

A natureza calou-se

Desde que o Gênio me viu;

Minha alma inteira sentiu

Repentina mutação,

Dei por mim em terra estranha;

Tive novos pensamentos;

Tive novos sentimentos;

Criei novo coração.

Visão do Céu... não — da terra;

Não podia ser do Céu;

Que Deus no domínio seu

Falsos arcanjos não quer;

Visão, que da natureza

Toda a graça revestia,

Por desdita vi um dia

Num semblante de mulher.

Tinha a visão tal encanto,

Que, ao vê-la, absorto fiquei;

Tanto, que não escutei

O profundo soluçar

Da inocência, que, sentindo

Da paixão a ardente calma,

Abraçada com minh’alma

Se despedia a chorar.

Vida de louco passei;

Mas achei nessa loucura

Tanto bem — tanta ventura,

Quais nunca a razão me deu;

Que, se a razão da verdade

Tem os claros resplendores, —

Amor o reino das flores

Tem todo inteiro por seu.

E a esta senda estrepada,

Que à morte os seres conduz,

O que lhe importa uma luz,

Se a não tapiza uma flor?

E se amor, além de flores,

Também possui um clarão,

Antes amor sem razão,

Do que razão sem amor.

Mas foi-se o tempo de risos

Da minha feliz loucura!...

Libei o fel da amargura

No mel de um beijo traidor!...

Do Gênio mau completou-se

A segunda profecia:

Era o que o Gênio dizia

No seu riso mofador.

Dessa profunda chaga resta ainda

Dorida cicatriz: a mão do tempo

Talvez cure-a por fim; mas não tão cedo,

Que inda verte de si pútrido sangue,

Se a magoam cruéis reminiscências

De quadra tão feliz.