IMPACIENTE O POETA DE TÃO DEMASIADO RIGOR LANÇA O RESTO DE SUAS FINEZAS PARA ABRANDAR SUA ESPOSA.

By Gregório de Matos Guerra

Vão-se as horas, cresce o dia,

meu tormento não se acaba;

a noite chega a meus olhos,

mas o alívio sempre tarda.

Meu coração já de aflito

não sofre tanta tardança:

a cada instante suspiro,

porque o teu rigor me mata.

Meus sentidos elevados

já não dão ascenso a nada,

tu me negas tua vista,

eu sem ti não sei, que faça.

Em um pranto todo o dia

não sossega, nem descansa

este triste, minha vida,

este pobre, minha mana.

As meninas dos meus olhos

já não vivem de esperança,

porquanto o teu coração

não se move, nem se abranda.

Olha tu, que crueldade

por ti padece minha alma,

maltratar, a quem te quer,

não querer, a quem te ama.

Baste já, que mais não posso,

não sejas, meu bem, ingrata,

que por ti vivo morrendo,

tu por mim não fazes nada.

Ai meu bem, quem tal dissera!

mas não quero dizer nada,

tu, que me quiseste muito,

me perdoa por tua alma.