INDO CERTO FRADE A CASA DE HUMA MERETRIZ LHE PEDIO ESTA QUINZE MlL REIS DANTEMÃO PARA TIRAR HUMAS ARGOLLAS, QUE TINHA EMPENHADAS.

By Gregório de Matos Guerra

Quinze mil-réis dantemão

Cota a pedir-me se atreve,

o diabo a mim me leve,

se ela val mais que um tostão:

que outra fêmea de canhão,

por seis tostões, que lhe dei

toda a noite a pespeguei,

e a quem faz tal peditório

Borrório.

Ora está galante o passo;

Menina, não me direis,

se vos deu quinze mil-réis,

quem vos tirou o cabaço?

fazeis de mim tão madraço,

que vos dê tanto dinheiro

por um triste parrameiro,

que está junto ao cagatório?

Borrório.

Quereis argolas tirar

Co’as moedas, que são minhas?

para tirar argolinhas

só lança vos posso dar;

vós pedis por pedinchar

sem vergonha, nem receio,

como se eu tivera cheio

de dinheiro um escritório:

Borrório.

Saís muito à vossa Mãe

nos costumes de pedir,

e eu em não contribuir

me pareço com meu Pai:

essa petição deixai;

quereis sustentar-vos só

vossa Mãe, e vossa Avó,

e todo o mais avolório?

Borrório.

Vindes a mui ruim mato,

Menina, fazer a lenha,

que outra fêmea mais gamenha

mo fazia mais barato:

buscai outro melhor pato;

quereis depenar, a quem

a penas segura tem

a ração do refeitório?

Borrório.

Quereis, que o Prelado astuto

me tome conta da esmola,

e que a bom livrar dê a sola?

que tal faça! fideputo:

eu não sou amba macuto,

nem sou tampouco matreiro,

que vós comais o dinheiro,

e eu fique de gorgotório?

Borrório.

Vós quereis sem mais nem mais,

que no sermão de repente

eu faça chorar a gente,

para que vós vos riais?

tão ruim alma me julgais,

que para as vossas cobiças

tome capelas de missas,

e que chore o Purgatório?

Borrório.

Ora enfim vós a pedir,

e eu Cota a vo-lo negar,

ou vós havei de cansar,

ou eu me hei de sacudir:

com que venho a inferir

destas vossas petições,

que heis de pedir-me os culhões,

a parvoíce, e zimbório

Borrório.