INDO O POETA, E GONÇALLO RAVASCO A CASA DE BETICA E QUERENDO TRATAR COM ELLA LHE...
Fui, Betica, à vossa casa
uma noite de luar
entrei com Senhor Gonçalo,
e saí com Barrabás.
Propus-vos minha doença,
comuniquei-vos meu mal,
receitastes-me um veneno
com matar-vos ofertar.
Logo entendi o remoque,
e que fiz, vos lembrará,
cara, como de quem prova
cousa, que lhe sabe mal.
Contudo tive paciência,
que, a quem saúde não há,
morre às vezes do remédio,
mais que do seu próprio mal.
Assentei de obedecer-vos,
e pus-me a considerar,
onde uma gala acharia
em tempo, que ovos não há.
Fiei-me no mercador,
que por fiar fiará
as sedas, que heis de vestir,
no roca de Portugal.
Mas tornando ao vosso conto
creio, que se há de notar,
que por pedires diante
vós quereis dar por detrás.
Que diante a luz caminhe,
diz o antigo rifão: mas
como a posso levar eu,
se o que quero, é tropeçar.
O que eu quisera, Betica,
é, convosco me encontrar,
que assim no escuro caíra,
quem com luz não cairá.
Eu quero convosco amores,
rinhas não, e claro está,
que dar, e tomar são rinhas,
de que Deus me há de livrar.
Dizem, que sois trigueirinha,
juro, o que posso jurar,
que mente, quem tal afirma,
porque vós bem clara estais.
Contudo torno a dizer-vos
que tenho de vos mandar
tão grande luz adiante,
que cegueis, e me caiais.
Entretanto só vos peço,
não queirais acrescentar
barrete de quatro cornos
com trezentos cornos mais.
Porque vos quero já tanto,
que a vida me há de custar,
ver chupar outras abelhas
flor, que sempre em flor está.