INDO O POETA, E GONÇALLO RAVASCO A CASA DE BETICA E QUERENDO TRATAR COM ELLA LHE...

By Gregório de Matos Guerra

Fui, Betica, à vossa casa

uma noite de luar

entrei com Senhor Gonçalo,

e saí com Barrabás.

Propus-vos minha doença,

comuniquei-vos meu mal,

receitastes-me um veneno

com matar-vos ofertar.

Logo entendi o remoque,

e que fiz, vos lembrará,

cara, como de quem prova

cousa, que lhe sabe mal.

Contudo tive paciência,

que, a quem saúde não há,

morre às vezes do remédio,

mais que do seu próprio mal.

Assentei de obedecer-vos,

e pus-me a considerar,

onde uma gala acharia

em tempo, que ovos não há.

Fiei-me no mercador,

que por fiar fiará

as sedas, que heis de vestir,

no roca de Portugal.

Mas tornando ao vosso conto

creio, que se há de notar,

que por pedires diante

vós quereis dar por detrás.

Que diante a luz caminhe,

diz o antigo rifão: mas

como a posso levar eu,

se o que quero, é tropeçar.

O que eu quisera, Betica,

é, convosco me encontrar,

que assim no escuro caíra,

quem com luz não cairá.

Eu quero convosco amores,

rinhas não, e claro está,

que dar, e tomar são rinhas,

de que Deus me há de livrar.

Dizem, que sois trigueirinha,

juro, o que posso jurar,

que mente, quem tal afirma,

porque vós bem clara estais.

Contudo torno a dizer-vos

que tenho de vos mandar

tão grande luz adiante,

que cegueis, e me caiais.

Entretanto só vos peço,

não queirais acrescentar

barrete de quatro cornos

com trezentos cornos mais.

Porque vos quero já tanto,

que a vida me há de custar,

ver chupar outras abelhas

flor, que sempre em flor está.