INDO O POETA PASSEAR PELA ILHA DA CAJAIBA, ENCONTROU LAVANDO ROUPA A MULATA ANNI...

By Gregório de Matos Guerra

Achei Anica na fonte

lavando sobre uma pedra

mais corrente, que a mesma água,

mais limpa, que a fonte mesma.

Salvei-a, achei-a cortês,

falei-a, achei-a discreta

namorei-a, achei-a dura,

queixei-me, voltou-se em penha.

Fui dar à Ilha uma volta,

tornei à fonte, e achei-a:

riu-se, não sei se de mim,

e eu ri-me todo p’ra ela.

Dei-lhe segunda investida,

e achei-a com mais clemência,

desculpou-se com o amigo,

que estava entonces na terra.

Conchavamos, que eu voltasse

na segunda quarta-feira,

que fosse à costa da Ilha,

e não pusesse o pé em terra,

Que ela viria buscar-me

com segredo, e diligência,

para na primeira noite

lhe dar a sacudidela.

Depois de feito o conchavo

passei o dia com ela,

eu deitado a uma sombra,

ela batendo na pedra.

Tanto deu, tanto bateu

co’a barriga, e co’as cadeiras,

que me deu a anca fendida

mil tentações de fodê-la.

Quando lhe vi a culatra

tão tremente, e tão tremenda,

punha eu os olhos em alvo,

e dizia, Amor, paciência.

O sabão, que pelas coxas

corria escuma desfeita,

dizia-lhe eu, que seriam

gotas, que Anica já dera.

Porque segundo jogava

desde a popa à proa, a perna,

antes de eu lhe ter chegado,

entendi, que se viera.

De quando em quando esfregava.”

a roupa ao carão da pedra,

e eu disse “mate-me Deus

com puta, que assim se esfrega.”

Anica a roupa torcia,

e torcendo-a ela mesma,

eu era, quem mais torcia,

que assim faz, quem não pespega.

Estendeu a roupa ao sol,

o qual, levado da inveja

por quitar-me aquela glória,

lha enxugou a toda a pressa.

Recolheu Anica a roupa,

dobrou-a, e pô-la na cesta,

foi para casa, e deixou-me

a la Luna de Valencia.