INÉDITO

By Delminda Silveira de Sousa

Quando a estrela da manhã, alta, subia,

Reluzindo e fremente como um guiso,

Três almas se encontraram tiritando,

À porta sideral do Paraíso,

E a primeira bateu. E havia

Um altivo desdém no seu gesto de mando.

— “Quem bate?” docemente perguntaram.

— “Um rei que foi na terra poderoso!”

— “Que sementes divinas espalharam

As tuas mãos?”

Batalhas! Valoroso

“Venci e conquistei cidades e países!”

“E a porta de oiro muda, inviolada,

Como si tivesse raízes,

Fulgindo e cintilando radiosa,

Permaneceu fechada”

E a segunda bateu. E a voz harmoniosa

De novo perguntou: — “Quem bate?”

— “Um sábio que viveu a meditar.

E longos anos passou no duro embate

Do saber. E envelheceu para criar.”

E a porta de oiro muda, inviolada,

Cintilando e fulgindo como um astro,

Continuou fechada!

E a terceira bateu. E a mesma voz:

— “Quem bate?” — Serena e doce interrogou.

— Um poeta que sempre andou de rastro

Pela vida e que a vida maltratou!

— “Que fizeste na terra?”

— “Eu? Amei!

E o meu amor, em versos, semeei!”

Por toda a esfera azul um canto se expandiu.

Então fúlgida, resplandecente,

Rodando nos seus gonzos, lentamente,

A porta de oiro se abriu!