INGRATA

By Delminda Silveira de Sousa

Francina, ouvi-te gemer,

e não posso um — ai — ouvir

sem na minh’alma sentir

a dor do alheio sofrer:

eis Francina, porque tanto

eu quis calar o teu pranto!

Eu quis a crença ensinar-te;

quis mostrar-te a bela Esp’rança;

ao mar que tenta afogar-te,

quis que voltasse a bonança;

quis acender em tu’alma

da Fé a luz doce e calma.

Tive de ti compaixão

porque te via sofrer;

ai! da tua ingratidão

me não lembrava, sequer!...

Quem és, ignoro, no entanto,

quis enxugar o teu pranto!...

Vejo-te ainda chorosa;

o teu pesar desconheço;

mas de te ver desditosa,

não sei que mágoa padeço...

e tu, Francina, és-me ingrata,

geada que as flores mata!

Matas a flor da Esperança

que é tão virente e tão bela!

revoltas a onda mansa

da Fé apagas a estrela

e na barquinha da vida,

lá vás, sem rumo, perdida!

Mas nas águas bonançosas

verdes, verdes como os campos

estrelados de pirilampos

e de florinhas mimosas,

vagaria o teu batel

se assim não foras — cruel...

Cruel... não; porém ingrata; —

e tão ingrata e tão fria

como a geada que mata

o lírio que lindo abria!

Como o espinho da rosa

que fere a mão carinhosa!

Que eu te esqueça — me ordenas,

porém com tal desalento,

mostrando tão cruas penas,

tão profundo sentimento,

que não te posso olvidar

neste terrível penar!

Portanto volto a ensinar-te

a ter Fé, a ter Esp’rança,

para que volva a bonança

ao mar que tenta afogar-te...

mas não me sejas — ingrata —

geada que as flores mata!...