INGRATA
Francina, ouvi-te gemer,
e não posso um — ai — ouvir
sem na minh’alma sentir
a dor do alheio sofrer:
eis Francina, porque tanto
eu quis calar o teu pranto!
Eu quis a crença ensinar-te;
quis mostrar-te a bela Esp’rança;
ao mar que tenta afogar-te,
quis que voltasse a bonança;
quis acender em tu’alma
da Fé a luz doce e calma.
Tive de ti compaixão
porque te via sofrer;
ai! da tua ingratidão
me não lembrava, sequer!...
Quem és, ignoro, no entanto,
quis enxugar o teu pranto!...
Vejo-te ainda chorosa;
o teu pesar desconheço;
mas de te ver desditosa,
não sei que mágoa padeço...
e tu, Francina, és-me ingrata,
geada que as flores mata!
Matas a flor da Esperança
que é tão virente e tão bela!
revoltas a onda mansa
da Fé apagas a estrela
e na barquinha da vida,
lá vás, sem rumo, perdida!
Mas nas águas bonançosas
verdes, verdes como os campos
estrelados de pirilampos
e de florinhas mimosas,
vagaria o teu batel
se assim não foras — cruel...
Cruel... não; porém ingrata; —
e tão ingrata e tão fria
como a geada que mata
o lírio que lindo abria!
Como o espinho da rosa
que fere a mão carinhosa!
Que eu te esqueça — me ordenas,
porém com tal desalento,
mostrando tão cruas penas,
tão profundo sentimento,
que não te posso olvidar
neste terrível penar!
Portanto volto a ensinar-te
a ter Fé, a ter Esp’rança,
para que volva a bonança
ao mar que tenta afogar-te...
mas não me sejas — ingrata —
geada que as flores mata!...