Ingratidão
Pelos olhos tristes que hoje vi passar
Junto à minha porta, é que eu vim rezar...
Pelos olhos tristes que já foram cheios
De sonhos álacres e de galanteios.
Vendo-os, hoje, tristes como nunca os vi
Por eles senti
Uma tal tristeza, que me lembrei logo
Do amor profundo do teu coração
Que é o vivo fogo,
O perenal clarão
Dos que sentem n’alma uma tristeza assim,
Que não têm na vida um venturoso fim.
Vendo-os, hoje, tristes como nunca os vi,
Por eles senti
Toda a alma voltada para a mocidade
Que tão longe vai,
Sem me ouvir o ai
Que eu às vezes solto, cheio de saudade,
Pois os meus cabelos já de neve são,
Brancos como a neve que dos montes cai.
Triste de quem vê a mocidade longe...
Veste-se, portanto, de burel de monge,
E senta-se, cansado,
Numa praia imensa, a fitar, coitado!
Um ocaso roxo, ou um luar velado,
Ou um barco branco, que além se perde
Na eterna ondulação das vagas do mar verde.
Vendo-os, hoje, tristes como nunca os vi,
Por eles senti
Coisas que nem sei!... Mas por fim das contas
Pus-me a recordar
Que esses olhos tristes, que hoje vi passar
São os que outrora me fizeram andar
Seguidamente às tontas...
Ah! tanto os queria,
Tanto os adorava,
Que não se passava
Um único dia,
Que eu não fosse vê-los...
Olhos que hoje são
Os meus pesadelos!...
— Olhos meus, castanhos,
Sois uns céus estranhos,
Era o que eu dizia...
E não lhe estão só tristes esses olhos, não!
Que tristeza tem a sua boca! Vejo
Sua boca triste como nunca a vi!
Nunca mais lhe dei um perfumoso beijo,
Nem jamais ouvi
O seu trino de ouro, todo o seu cantar,
Que me parecia
O da cotovia
Quando tece o ninho na ramada agreste,
Para aí noivar,
Sob o azul celeste.
Boca que já fora uma flor vermelha,
A mais fresca e bela,
Que até mesmo a abelha
Vinha muito vezes espojar-se nela!
Mas, agora, como
Essa boca está! (Coitadinha dela!)
Nem parece um gomo
De laranja cravo, nem de tangerina,
Nem de bergamota, nem de fruta alguma!
E os seus dentes eram de marfim, em suma.
Numa casa branca, coberta de parras,
Cercada de rosas e verdes salgueiros,
Ouvindo o chiar das lindas cigarras,
Ouvindo o cantar dos belos coleiros,
Ouvindo do mar as ondas saudosas,
Ouvindo dos rios as águas maviosas,
Em horas sem contas, eu sempre dizia:
— Espera por mim, até que, num dia
De maio florido, o nosso noivado
Encante em festanças todo este povoado...
Serei todo teu, e minha serás...
Entretanto, depois de uma manhã de beijos,
Saciante de desejo,
E do meu coração fazer mil juramentos,
Um barco me levou, velas pandas aos ventos...
E desse dia então (Há quantos anos!)
Tem sido a minha vida um mar de desenganos.
Mas, ó Virgem Senhora da Conceição,
Devo rezar por esses olhos tristes
Que eu vi, e vistes,
Ou pela minha ingratidão?