INSISTE O POETA (VENDO ESTES DESAPEGOS DE BRITES EM O NÃO QUERER ADMITIR) PARA SER CORRESPONDIDO EM SEU AMOR, ARGUMENTANDO-LHE RIJAMENTE CAUTELLOSOS SILLOGISMOS MAS TUDO DEBALDE.
Tenho-vos escrito assaz,
e torno nesta ocasião
a escrever-vos pertinaz,
para ver se o tempo faz,
o que não pode a razão.
Que talvez de importunada,
muito mais que de rendida
cede a vontade obstinada
mais que à razão de adorada,
à força de perseguida.
Vós não me correspondeis,
porque haveis medo de amar,
e esses riscos, que temeis,
são falsos, pois bem podeis
agradecer sem pagar.
Agradecei-me não mais
verdes-vos idolatrada,
porque com leves sinais
a mais amor me empenhais,
e ficais desobrigada.
Isto tem a gratidão,
que escusa grandes despesas,
com uma demonstração,
gastando pouca afeição
se ganham muitas finezas.
Fazei comigo um assento
de amor, e seu galardão,
ganhareis cento por cento,
se entrais co agradecimento,
entrando eu com afeição.
Não sei, que mal vos esteja,
Senhora, o meu bem-querer,
e porque a Lua se veja,
tudo, o que quer bem, deseja
muitos bens, a quem bem quer.
Isto é, o que significa
querer bem, isso contém,
que quem a Amor se dedica,
ao sujeito, a quem se aplica,
quer bem, e deseja bem.
Para os que mal vos quiserem,
que lhes guarda, ou lhes prepara
vossa condição tão rara?
se àqueles, que bem vos querem,
mostrais desabrida a cara.
Estou por me arrepender
de adorar, a quem me mata,
porque se a ambos maltrata,
mau fim tenha o bem-querer,
que vos faz a vós ingrata.
Mas eu tenho averiguado,
que isto consiste na estrela,
e o que perde o meu cuidado,
porque vós sois Moça bela,
e eu velho mal estreado.
Não o tenhais a escarcéu,
que se às estrelas mais belas
levais ganhado o troféu,
depois que eu trato esse céu,
entendo muito de estrelas.
E pois com vosso crisol
se ilumina a esfera bela,
em seu azul arrebol
bem podereis vós, meu sol,
dar-me outra melhor estrela.
Servi-vos de apiedar-vos
deste triste sem ventura,
porque é certa conjetura,
que, quem pertende adorar-vos,
nem faz mal, nem mal procura.