INSISTE O POETA (VENDO ESTES DESAPEGOS DE BRITES EM O NÃO QUERER ADMITIR) PARA SER CORRESPONDIDO EM SEU AMOR, ARGUMENTANDO-LHE RIJAMENTE CAUTELLOSOS SILLOGISMOS MAS TUDO DEBALDE.

By Gregório de Matos Guerra

Tenho-vos escrito assaz,

e torno nesta ocasião

a escrever-vos pertinaz,

para ver se o tempo faz,

o que não pode a razão.

Que talvez de importunada,

muito mais que de rendida

cede a vontade obstinada

mais que à razão de adorada,

à força de perseguida.

Vós não me correspondeis,

porque haveis medo de amar,

e esses riscos, que temeis,

são falsos, pois bem podeis

agradecer sem pagar.

Agradecei-me não mais

verdes-vos idolatrada,

porque com leves sinais

a mais amor me empenhais,

e ficais desobrigada.

Isto tem a gratidão,

que escusa grandes despesas,

com uma demonstração,

gastando pouca afeição

se ganham muitas finezas.

Fazei comigo um assento

de amor, e seu galardão,

ganhareis cento por cento,

se entrais co agradecimento,

entrando eu com afeição.

Não sei, que mal vos esteja,

Senhora, o meu bem-querer,

e porque a Lua se veja,

tudo, o que quer bem, deseja

muitos bens, a quem bem quer.

Isto é, o que significa

querer bem, isso contém,

que quem a Amor se dedica,

ao sujeito, a quem se aplica,

quer bem, e deseja bem.

Para os que mal vos quiserem,

que lhes guarda, ou lhes prepara

vossa condição tão rara?

se àqueles, que bem vos querem,

mostrais desabrida a cara.

Estou por me arrepender

de adorar, a quem me mata,

porque se a ambos maltrata,

mau fim tenha o bem-querer,

que vos faz a vós ingrata.

Mas eu tenho averiguado,

que isto consiste na estrela,

e o que perde o meu cuidado,

porque vós sois Moça bela,

e eu velho mal estreado.

Não o tenhais a escarcéu,

que se às estrelas mais belas

levais ganhado o troféu,

depois que eu trato esse céu,

entendo muito de estrelas.

E pois com vosso crisol

se ilumina a esfera bela,

em seu azul arrebol

bem podereis vós, meu sol,

dar-me outra melhor estrela.

Servi-vos de apiedar-vos

deste triste sem ventura,

porque é certa conjetura,

que, quem pertende adorar-vos,

nem faz mal, nem mal procura.