INTENTA AGORA O POETA DESAGRAVAR A VICENCIA JUSTAMENTE SENTIDA DOS SEUS VERSOS.

By Gregório de Matos Guerra

Os vossos olhos, Vicência,

tão belos, como cruéis,

são de cor tão esquisita,

que não sei, que cor lhes dê.

Se foram verdes, folgara,

que o verde esperança é,

e tivera eu esperanças

de um favor vos merecer.

Os azuis de porçolana

força é, quer pesar me dêem,

que porçolanas não servem,

onde não hei de comer.

Se são negros vossos olhos,

é já luto, que trazeis

pelos homens, que haveis morto

a rigores, e desdéns.

Mas sendo tais olhos pares,

no mundo outro par não têm,

pois nem os Pares de França

podem seus escravos ser.

Se os vossos olhos se viram

um a outro alguma vez,

como se namorariam!

e se quereriam bem!

Que de amores se disseram

um a outro, que desdéns!

meus olhos se chamariam,

meu sol, minha luz, meu bem,

Um pelo outro chorando,

ambos chorariam, que

quando os olhos vêem chorar,

força é, que chorem também.

Mas por isso a natureza

catelosamente fez

entre os olhos o nariz,

com que os olhos se não vêem.

Que se um a outro se viram,

Vicência, tivera eu

no prezar dos vossos olhos

a vingança, que hei mister.