INTENTA AGORA O POETA DESAGRAVAR A VICENCIA JUSTAMENTE SENTIDA DOS SEUS VERSOS.
Os vossos olhos, Vicência,
tão belos, como cruéis,
são de cor tão esquisita,
que não sei, que cor lhes dê.
Se foram verdes, folgara,
que o verde esperança é,
e tivera eu esperanças
de um favor vos merecer.
Os azuis de porçolana
força é, quer pesar me dêem,
que porçolanas não servem,
onde não hei de comer.
Se são negros vossos olhos,
é já luto, que trazeis
pelos homens, que haveis morto
a rigores, e desdéns.
Mas sendo tais olhos pares,
no mundo outro par não têm,
pois nem os Pares de França
podem seus escravos ser.
Se os vossos olhos se viram
um a outro alguma vez,
como se namorariam!
e se quereriam bem!
Que de amores se disseram
um a outro, que desdéns!
meus olhos se chamariam,
meu sol, minha luz, meu bem,
Um pelo outro chorando,
ambos chorariam, que
quando os olhos vêem chorar,
força é, que chorem também.
Mas por isso a natureza
catelosamente fez
entre os olhos o nariz,
com que os olhos se não vêem.
Que se um a outro se viram,
Vicência, tivera eu
no prezar dos vossos olhos
a vingança, que hei mister.