INTRODUÇÃO

By Antônio Gonçalves Dias

Os ritos semibárbaros dos Piagas,

Cultores de Tupã, a terra virgem

Donde como dum trono, enfim se abriram

Da cruz de Cristo os piedosos braços;

As festas, e batalhas mal sangradas

Do povo Americano, agora extinto,

Hei de cantar na lira. — Evoco a sombra

Do selvagem guerreiro!... Torvo o aspecto,

Severo e quase mudo, a lentos passos,

Caminha incerto, — o bipartido arco

Nas mãos sustenta, e dos despidos ombros

Pende-lhe a rôta aljava... as entornadas,

Agora inúteis setas, vão mostrando

A marcha triste e os passos mal seguros

De quem, na terra de seus pais, embalde

Procura asilo, e foge o humano trato.

Quem poderá, guerreiro, nos seus cantos

A voz dos piagas teus um só momento

Repetir; essa voz que nas montanhas

Valente retumbava, e dentro d’alma

Vos ia derramando arrojo e brios,

Melhor que taças de cauim fortíssimo?!

Outra vez a chapada e o bosque ouviram

Dos filhos de Tupã a voz e os feitos

E as pocemas de morte, levantadas

Dentro do circo, onde o fatal delito

Expia o malfadado prisioneiro,

Qu’enxerga a maça e sente a muçurana

Cingir-lhe os rins a enodoar-lhe o corpo:

E sós de os escutar mais forte acento

Haveriam de achar nos seus refolhos

O monte e a selva e novamente os ecos.

Como os sons do boré, soa o meu canto

Sagrado ao rudo povo americano:

Quem quer que a natureza estima e preza

E gosta ouvir as empoladas vagas

Bater gemendo as cavas penedias,

E o negro bosque sussurrando ao longe —

Escute-me. — Cantor modesto e humilde,

A fronte não cingi de mirto e louro,

Antes de verde rama engrinaldei-a,

D’agrestes flores enfeitando a lira;

Não me assentei nos cimos do Parnaso,

Nem vi correr a linfa da Castália.

Cantor das selvas, entre bravas matas

Áspero tronco da palmeira escolho.

Unido a ele soltarei meu canto,

Em quanto o vento nos palmares zune,

Rugindo os longos encontrados leques.

Nem só me escutareis fereza e mortes:

As lágrimas do orvalho por ventura

Da minha lira distendendo as cordas,

Hão de em parte ameigar e embrandece-las.

Talvez o lenhador quando acomete

O tranco d’alto cedro corpulento,

Vem-lhe tingido o fio da segure

De puto mel, que abelhas fabricaram;

Talvez tão bem nas folhas qu’engrinaldo,

A acácia branca o seu candor derrame

E a flor do sassafraz se estrele amiga.