Invocação à lua

By Delminda Silveira de Sousa

Ó lua merencória, ó lua de Janeiro,

dessa luz divinal de mágico palor

dá-me um raio sutil, um raio teu fagueiro

que rompa ao meu sonhar o véu de negra cor!

Oh! lua merencória, amiga da minh’alma,

escuta carinhosa o rogo angustiado:

— no teu raio gentil me volve a doce calma,

os risos, a ventura, os sonhos do passado!

Tu vês nos olhos meus a dor que o seio atura...

nos ais do meu penar — o fel do dissabor,

oh! lua merencória, envolve na doçura

da luz dum raio teu — minh’alma, a minha dor!

Do mundo nos parcéis, nas vagas procelosas,

sem rumo a triste vida incerta vai-se além...

Quem há de a frágil barca, em águas tormentosas,

suster, do vendaval nas fúrias do vai-vem?...

Minh’alma angustiada ao Céu transporta agora...

num doce raio teu, me volve a doce esp’rança;

oh! astro meu gentil, no Céu da minha aurora,

sumiu-se em negra cor meu íris de bonança!...

Oh! lua merencória, oh, lua de Janeiro,

escuta de minh’alma o rogo angustiado:

volve-me em teu palor, no teu clarão fagueiro,

— os sonhos, a ventura, as crenças do passado!