IV A sesta
Em pleno zenith, brilhante e ardente,
Embala-se em rede de chispas — o sol...
A sombra s’esconde, medrosa, tremente,
Por baixo dos galhos...
Que à míngua de orvalhos
Aguardam sedentos o vir do arrebol.
À sombra excitante, serena, tranquila,
Das árvores altas do sul do Brasil,
Erguidos os braços, cerrada a pupila...
Formosa morena
Dormita serena,
Sorrindo, opiada n’um sonho gentil!
Tão nua... e tão bela! tão cheia de encantos,
Provoca lascívias em tal languidez!...
As pálpebras tremem, humentes, sem prantos...
E em câimbras de gozo
Seu corpo nervoso
Dá saltos felinos por mais de uma vez...
Sem medo e sem vestes... os seios trementes,
Os lábios convulsos nas ânsias de rir;
Se soltam as aves seus cantos dolentes,
Os braços agita...
Seu peito palpita,
Mas — vendo que é nada — sorri, a dormir!
E dorme, sonhando, tão bela e tão calma,
Qual fada das lendas do povo alemão,
Que a um príncipe loiro, que rouba-lhe a alma,
Se entrega rendida...
E dorme, esquecida,
Por meses, por anos, por sec’los... em vão!
Seus negros cabelos, compridos, olentes,
Se agitam aos sopros dos gênios do ar...
E vêm-lhe ao ouvido, de manso, plangentes,
Os ecos perdidos
Dos longos gemidos
Que soltam os ventos da banda do mar!...
Mas ah! que a araponga soltou no arvoredo
Um grilo estridente, metálico... então:
A pálida moça, tremendo de medo,
Em casto receio,
Co’as mãos cobre o seio;
E os negros cabelos caiam-lhe ao chão!...
Para uma lagoa, que perto corria,
Dirige seus passos, transida de horror;
Ao pé do salgueiro, que à margem se via,
A água faz bulha...
Seu corpo mergulha...
E — escondem as águas tesouros de amor!