IV

By Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos

Calou-se a voz. A noite era funesta.

E os queixos, a exibir trismos danados,

Eu puxava os cabelos desgrenhados

Como o Rei Lear, no meio da floresta!

Maldizia, com apóstrofes veementes,

No estentor de mil línguas insurretas,

O convencionalismo das Pandetas

E os textos maus dos códigos recentes!

Minha imaginação atormentada

Paria absurdos... Como diabos juntos,

Perseguiam-me os olhos dos defuntos

Com a carne da esclerótica esverdeada.

Secara a clorofila das lavouras.

Igual aos sustenidos de uma endecha,

Vinha-me às cordas glóticas a queixa

Das coletividades sofredoras.

O mundo resignava-se invertido

Nas forças principais do seu trabalho...

A gravidade era um princípio falho,

A análise espectral tinha mentido!

O Estado, a Associação, os Municípios

Eram mortos. De todo aquele mundo

Restava um mecanismo moribundo

E uma teleologia sem princípios.

Eu queria correr, ir para o inferno,

Para que, da psique no oculto jogo,

Morressem sufocadas pelo fogo

Todas as impressões do mundo externo!

Mas a Terra negava-me o equilíbrio...

Na Natureza, uma mulher de luto

Cantava, espiando as árvores sem fruto,

A canção prostituta do ludíbrio!