IV

By Gonçalves de Magalhães

Quando se arrouba o pensamento humano,

E todo no infinito se concentra,

De milhões de prodígios povoado;

Quando sobre o fastígio de alto monte,

Como um colibri sobre altivo robre,

Na vastidão sidérea a vista espraia;

E vê o sol, que no Oriente assoma,

Como num lago em própria luz nadando,

E a noite, que se abisma no Ocidente,

Arrastando seu manto tenebroso,

De pálidas estrelas semeado;

Quando dos gelos, que alcantis coroam,

Vê a enchente rolar em cataratas,

Por cem partes abrindo largo leito,

Fragas, e pinheirais desmoronando;

Quando vê as cidades enterradas

A seus pés na planície, e negros pontos

Aqui, e ali, moverem-se sem ordem,

Como abelhas em torno da colmeia;

O homem então se abate; um suor frio,

Que o suor que o moribundo côa,

Rega-lhe o corpo extático; sua alma,

Como um subtil vapor, que o lírio exala,

Ferido pelo raio matutino,

Da terra se levanta; e o corpo algente

Qual um combro de pó morto parece...

Ela está no infinito! — Então lhe troa

Uma voz, como o eco das cavernas,

Quando os ventos nos ares se debatem;

Como um ronco do Oceano repelido

Por estável penedo; como um grito

Das entranhas da terra, quando acesas

De sua profundez lavas borbotam;

Como o rouco bramido das tormentas;

É a voz do Universo! — voz terrível,

Porém harmoniosa, que proclama

A existência de um Ser, que de si mesmo,

De sua onisciência, e eterna força,

Tudo tirou, quanto o Universo encerra.

Os céus, os mundos, o Oceano, a terra

É um vasto hieroglífico, é a forma

Simbólica do Ser aos olhos do homem.

O movimento harmônico dos orbes

É o hino eterno e místico, que narra

Altamente de um Deus a onipotência.

Tudo revela Deus, — e Deus é tudo.

De tal grandeza sotoposto ao peso,

Como se o esmagasse ingente mole,

O homem se aniquila, e desparece,

Qual no profundo pego um grão de areia.

É aqui, oh meu Deus, calcando nuvens,

Parecendo tocar o céu co’a fronte,

Qu’eu reconheço a imensidade tua

Existe este Universo, existe o homem,

Porque de todo o Ser tu és a origem.

Aqui, para louvar teu santo Nome,

É fraco o peito humano, é fraca a língua,

É fraca a voz, que titubante hesita

Tão alto remontar, e no ar perder-se,

Antes que de astro em astro repetida,

De um céu a outro céu, de um Anjo a outro,

Vá retinir, Senhor, em teus ouvidos,

Como discorde som de rota lira.

Alva nuvem, que toucas este monte,

Desce um pouco, e recebe-me em teu dorso;

Asinha ala-me ao céu; na etérea plaga,

Vendo o sol de mais perto, talvez possa,

Com sua luz benéfica animado,

Altíssono entoar um hino excelso,

Digno de Jeová, que eterno escuta

Dos angélicos coros a harmonia.

Abre-te, oh céu azul, que a mortais olhos

A mansão do Senhor zeloso ocultas!

Abre-te, oh céu azul; deixa minha alma

Saciar-se co’a luz da Sião santa.

Sobe, meu pensamento, voa, rompe

Os turbilhões dos Querubins, e Tronos,

Mais belos que mil sóis, mais coruscantes,

Que em vórtice perene estão ladeando

Do Eterno Padre o luminoso sólio.

Oh arrojado pensamento humano,

Por mais que em teu socorro os astros chames,

Por mais que sua luz o sol te empreste,

Seu ouro a terra, o céu a imensidade,

Os rios a corrente, os campos flores,

Suas asas o raio, os sons a lira,

E a noite seu mistério, alfim se tudo

Invocado por ti, a ti se unisse,

Não puderas ainda em teus transportes

Os louvores tecer do Onipotente!

Mas, oh Deus, que missão tens confiado

A este fraco ser, que sobre a terra

Entre os mais seres como um rei se ostenta,

E único para ti erguendo os olhos,

Parece teu rival? Missão augusta

É sem dúvida a sua; e o seu destino

Não é o d’alimária!... A Natureza

Obedece a seu mando, como se ele

Entre Deus, e a terra colocado,

Órgão fosse das leis da Providência.

Quem a ele se opõe? — Embalde o Oceano

Com cem braços separa os continentes.

O homem destrona os robres, e os pinheiros

Das fragas da montanha, ousado os lança

Sobre a cerviz do Oceano, enfreia os ventos,

E assoberbando as vagas furibundas,

Que ante seu gênio quebram-se gemendo,

Domina, e calca o túmido elemento,

E atravessa de um pólo a outro pólo,

Como atravessa os ares veloz águia.

Aqui bramando, um rio se devolve,

Qual serpente feroz medo incutindo;

Co’uma arcada de pedra o homem cobre-o;

Ele a derruba? — nova arcada o doma.

Como gigantes firmes, alinhados,

Para impedir-lhe a marcha, as frontes erguem

Enormes Alpes, açoutando as nuvens

Co’a coroa de gelo, e co’os penachos

De branca carambina, e verdes selvas;

Não retrograda o homem, não desmaia!

Quando sobre a cimeira o sol se encosta,

E a vista estende à profundez do vale,

O sol já no árduo afã vencendo o enxerga;

Quando transmonta o sol, o homem dá tréguas,

E descansa na já vencida estrada!

De dia em dia assim prossegue ovante;

Ora esbroa um cabeço mais supino,

E co’as ruínas desse outro nivela;

Ora sobe, ora desce, ora torneia,

Ora penetra a rigidez do monte,

Como a seta do Índio os ares rompe,

E a noite das abóbadas varando,

D’outro lado vai ver o céu, e o dia!

Quem tu és? Quem tu és, que podes tanto?

Tu convertes os bosques em cidades;

Marcas do sol o giro, e o dos cometas;

Do povo alado as regiões exploras;

Nem no mar a baleia está segura,

Nem nas espessas selvas o elefante!

Quem tu és? Quem tu és, que podes tanto?

Toda a terra está cheia com teu nome;

Um século transmite a outro século

Dos teus feitos a história portentosa;

Tu só marchas, tu só te desenvolves,

E inda não recuaste de fadiga!

Com que sinal selou a tua fronte

A mão do Criador? — Donde descendes?

Quem tu és? Quem tu és, que podes tanto?

Não, não és para mim mais um enigma!

Conheço a origem tua, e o teu destino

Tua missão conheço sobre a terra.

A Natureza toda te respeita

Porque és do Criador a obra-prima,

Porque transluz em ti o seu transunto.

Não é à força tua que se curva

A terra, que se à força se curvasse,

Seria o elefante o rei da terra.

É à tua sublime inteligência,

É a Deus, só a Deus, que tu refletes,

Como do sol a luz reflete a lua.

Nas barreiras da morte tudo esbarra,

Menos o homem, que atravessa airoso,

Aí o mortal corpo abandonando,

Para no seio entrar da Eternidade;

Assim o viajor o pó sacode,

E deixa o companheiro de viagem

Manto todo coberto de poeira,

Quando à cidade desejada chega.

A alma não morre, porque Deus não morre.

Assaz, oh Deus, o homem sobre a terra

Revela teu poder, tua grandeza.

A Razão, és tu mesmo; — a liberdade,

Com que prendaste o homem, não, não pode

Dominar a Razão, que te proclama!

Se muda para mim fosse a Natu,

Na Razão que me aclara, e não é minha,

Senhor, tua existência eu descobrira.

Eu te venero, oh Deus da Humanidade!

Meu amor o que tem para ofertar-te?

Digno de ti só tem minha alma um hino,

E esse hino, oh meu Senhor, é o teu Nome!

Que pode o homem dar a quem dá tudo?

Só em meu coração suspiros tenho,

Suspiros para todos os momentos.

De ti, Senhor, minha alma necessita,

Como de luz meus olhos, de ar meu peito.

E se me é dado a ti subir meus votos,

Se é dado pela mãe pedir um filho,

Voem meus votos sobre as ígneas asas

Do sol, e tu, Senhor, propício atende:

Nada por mim, por minha Pátria tudo;

Fados brilhantes ao Brasil concede.