IV

By Laurindo José da Silva Rabelo

Outro fantasma, a glória,

Da passada visão invade o posto.

Pelos mares risonhos da esperança

Ao batel do desejo abrindo as velas

Minh’alma foi buscá-lo.

De pintor bem falaz condão tem ele

Muito para temer; do entusiasmo

Nas lavas do vulcão acende o facho,

Que os desenhos lhe aclara: esposa amante,

Dá-lhe, a imaginação, seus cofres todos,

Donde tira estampas que copia

Nas telas do futuro. De seus quadros

Na beleza enlevada a viajante

Navega sem sentir.

Eis ponto negro

No azulado horizonte surge, e estende

Asas de tempestade! Às vistas magas

Reposteiro de ferro mão ignota

Rápido corre, e presto em lastro imenso

De aguçados cachopos se convertem

As aniladas ondas. Rola o lenho

Por sobre o pedregal, e mastro e leme,

Enrolados na vela espedaçada,

O sopro de um tufão some nos ares!

Rompendo a cerração espectro em osso

De repente aparece, sacudindo

Na destra uma mortalha: envolto nela

Desceu meu pai à campa!...

Musa, basta...

Pare-se um pouco aqui; nas tuas asas,

Que não neste papel, corra meu pranto...

Apara-o, anjo meu; depois os mares

Transpõe... o lar dos mortos não te assusta —

Não é assim? Pois bem, irmã querida,

Na terra — nossa mãe — suspende os vôos;

Busca a sombria região dos túmulos,

E lá, depois de um beijo dar na campa

De nosso amado pai, depõe sobre ela

Este pranto que verto.

Enfim bonança

Ímpia resplandeceu sobre os destroços

Que fez o vendaval. Único vivo,

Em pé sobre um rochedo, contemplei-os

E ri-me... e neste riso agonizou-me

A última esperança... foi a síntese

De minha vida inteira; — estreita fresta

Por onde, desmaiada e quase morta,

Minh’alma um raio morno

De prazer sepulcral mandava ao mundo.

E o Gênio, que viu meu berço,

Dentre os cachopos surgiu,

E olhando os estragos riu,

Contente de minha dor.

Do Gênio estava completa

Toda inteira a profecia:

Era o que o Gênio dizia

No seu riso mofador.