IX Na estância
De manhã cedo, quando as aves trinam,
E a cerração nos descampados dorme...
Saltar de cima do lombilho e logo
Lavar o rosto na lagoa enorme...
Ir ao curral, e, mesmo na porteira,
Uma guampa beber de leite quente;
Sovar a palha e ir picando o fumo,
A conversar com essa boa gente...
Encilhar o matungo, ir no tranquilo
Dar uma volta por aqueles pagos...
E na venda mais próxima apeando
Cantar ao violão, tomando uns tragos...
Depois voltar ao rancho ou ao sobrado,
Tanto n’um como n’outro há boas gente;
E na rede suspensa de dois caibros
Saborear um chimarrão bem quente...
Em seguida, na mesa da varanda,
Tendo a faca de ponta na bainha,
Deixar esta na cinta e com aquela
Comer churrasco gordo com farinha...
Dormir ao meio dia um sono à sesta,
Debaixo da ramada verdejante;
E despertar aos gritos do moleque,
Que anuncia a comida fumegante...
Jantar feijão com charque, carne fresca,
Costeletas de porco, arroz da terra;
E após a sobremesa de canjica
Passear ‘té sol posto pela serra...
Eis a vida que levam dia a dia
Os robustos e bons estancieiros,
Que se têm luxo — é só na prataria
Com que arreiam os ágeis parelheiros...
E a pescaria à noite? e as cantigas
De analfabeto e rude menestrel,
Que improvisa bons versos, sem que saiba
Nem escrever seu nome n’um papel?
E os olhados gentis da mulatinha,
Que os dedos nos aperta ao dar o mate?...
E depois...desfalece na viola,
Com saudades talvez d’algum mascate...
E os sorrisos ingênuos da morena,
A quem chamam Chinoca ou Inhazinha?
E as proezas dos moços caçadores?...
E as histórias da trêmula velhinha?...
... Eu gosto d’essa vida ignorada,
Que passam nas estâncias meus patrícios;
Longe das multidões, longe dos vícios,
Aos lúgubres mugidos da boiada.