IX

By Gonçalves de Magalhães

Gigante do porvir, oh Mocidade,

Erguei a fronte altiva

Entre as brancas cabeças da velhice,

Como ao sopro vital da primavera

O pimpolho gentil se desabrocha

Entre os já secos e curvados troncos.

Subi em sacro arroubo a mente vossa,

Como uma labareda;

Contemplai o passado;

Em silêncio o futuro vos aguarda,

E o presente se curva ao vosso mando.

Deus em vós ateou do gênio o fogo,

Que a Humanidade guia,

Como a estrela polar o navegante,

Ou como a chamejante, ígnea coluna,

Que o povo de Moisés guiou nos bosques;

Sagrado fogo que jamais se extingue.

Em vosso coração palpita a vida,

O brio, e a força os membros vos circulam,

Flâmeas asas vos dá o entusiasmo,

É vulcânea vossa alma,

E d’águia os olhos tendes,

Com que medis o espaço, o céu, e o globo.

A terra vos pertence, oh Mocidade!

Por vós renasce o mundo a todo o instante,

Por vós resplende juventude a terra;

Não envelhece o céu, nem as estrelas,

Nem se encanece o sol no longo giro.

Em vós só se resume a Humanidade,

Que a passos graves ao través dos evos

Ovante marcha sempre fresca e jovem.

Para vós o passado é muda estátua,

Que o grande livro aponta,

Onde a verdade, e o erro se confundem,

Bem como o ouro, e o esmeril no antro da terra

Os séculos selaram esse livro,

Quando nele seus fastos transcreveram.

Eis a página branca,

Que aguarda os feitos vossos;

Meditai, meditai, antes de enchê-la!

Quando já fatigados do caminho,

Sobre a pedra da tumba repousardes,

Avante marcharão os filhos vossos;

E esse livro tomando-vos, um dia

Irão saber o que seus Pais fizeram.

Qual é vossa missão? Qual vossa idéia?

Oh Mocidade, um só caminho existe,

Um só trilhar vos cumpre,

Se vos apraz o bem, se o bem vos chama.

É longa a estrada, aspérrima e difícil!

Mas um Astro em seu fim claro rutila,

Permanente farol que a cor não muda;

Olhai, — vede-o ao través do nevoeiro,

Que ante vós remoinha,

Como ele imóvel sua luz esparge!

Esse Astro é Deus! — Oh Mocidade, a Ele!

Ah não retrogradeis, — a Ele, a Ele.

Vedes vós como se ergue encapelado

Ante a convulsa proa o mar em montes?

Vedes a nuvem que no céu negreja?

O sol que empalidece? — Ouvis os roncos

De hórridos ventos que nos ares troam?

O raio crepitante que espedaça

Velas, e mastro? a nau, que soluçando,

Qual nas vascas da morte o moribundo,

Nos vaivéns sobe, desce, e se debate,

Perde o rumo, sem tino a esmo vaga,

Roça no escolho a quilha, ali recua,

Ao capricho dos ventos, e das vagas,

Té que santelmo lhe ilumine o tope,

E do naufrágio a salve?

Tal é da Humanidade o fido emblema!

Tal sua marcha foi, tal é ainda,

Por mil contrários ventos combatida!

Porém malgrado a fúria, e a tempestade,

A Humanidade marcha; — e Deus a guia.

Forceja a humana indústria

Para domar o mar, pôr freio aos ares;

Talvez um dia os ares assoberbe,

Até aqui indomáveis;

E às suas leis submissos,

Também os ares, desdobrando as asas,

No espaço o Gênio vencedor transportem.

E por que não será melhor um dia

Do que até hoje foi a Humanidade?

Se Deus mil vezes a salvou da morte,

Somente agora a deixará sozinha,

Antes de realizar a augusta idéia,

Que é sua vida, e pela qual só luta?

Qual é a grande idéia,

Que nem mesmo nos mais cruéis reveses

Jamais abandonou a Humanidade?

A perfeição, o bem! — Ah não me iludo!

Vossa idéia será vosso destino;

Inata idéia só do Eterno herdastes,

Deus em vós a gravou; verace é ela.

Erguei os olhos vossos,

E cravai-os no céu, oh Mocidade!

Vede o astro da eclíptica,

Que girando no centro do Universo,

A terra vivifica,

A terra que vos nutre, opaca mole

Que por ele de luz se adorna, e esmalta?

Em torno ao sol em perenal cadência

Outros astros satélites gravitam,

Sem deslizar das órbitas traçadas

Pelo compasso eterno!

Eis o físico mundo,

Emblema de outro, mais sublime ainda,

Cujo Sol sempiterno enche o Universo.

Vossa alma é um satélite desse Astro,

E sem a sua luz ela não fulge;

Similhante ao planeta que vos nutre,

Que na ausência do sol morto negreja.

Mas deste Astro, que excede à mortal vista,

Sabeis acaso o Nome?

Perguntai às estrelas que alcatifam

Os degraus de seu sólio;

Perguntai ao trovão, ao raio, às ondas,

À terra perguntai, à águia celeste,

E ao verme que rasteja:

Jeová, Adonai, Deus, Harmonia,

Eis o Sol de vossa alma.

Por ele só viveis. Ah! se um instante

Em centrífugo vórtice deixardes

O sulco de seu dedo,

Desgarrada, e sem lei, como um meteoro,

Vos perdereis no espaço.

Gigante do porvir, oh Mocidade,

Aprendei a entoar de Deus o Nome;

Cantai, cantai da Juventude o hino,

Marchai, louvando do Senhor a glória,

Como nos bosques de Israel os filhos.

Ante vós fugirão espavoridos

Tiranos inimigos;

O mar recuará as ondas suas,

E os montes vos darão doces torrentes.

Olhai, ah vede a prometida terra!

Ei-la! Marchai ovante.

Cantai, magnificai de Deus o Nome.

Entoa, oh minha alma,

Um hino ao Senhor,

Um hino de glória

Ao teu Criador.

A luz que te aclara,

É d’Ele emanada,

E a tua linguagem

Por Ele inspirada.

Embalde procuras

O bem sobre a terra;

O bem que desejas,

Só n’Ele se encerra.

No meio das ondas

O nauta mais forte

Pergunta às estrelas

Qual é o seu norte.

Se o vento enfurece,

Se o mar se exaspera,

Invoca seu Nome,

E salvar-se espera.

Se tu sempre atenta

Seu mando escutares,

E por seus ditames

Fiel te guiares:

Que haverá que possa

Roubar-te a vitória?

O bem terás certo,

Terás certa a glória.

Entoa, oh minha alma,

Um hino ao Senhor,

Um hino de glória

Ao teu Criador.

E vós da Pátria minha, oh Mocidade,

De quem os feitos celebrar desejo...

Mas por que um suspiro inopinado

O canto me interrompe?...

Por que se apagam de meu gênio as asas,

Que expandidas nos ares flamejavam,

E esmorecidas caem, qual ferida

Pela seta do Índio

Soberba arara, no celeste vôo,

Em vórtices gemendo baixa à terra?

Oh Mocidade, ouvi, não meus acentos,

Mas a voz da verdade,

Que em minha alma troveja,

E me abala dos ossos a medula.

Vós sois como uma flor não bafejada

Pelo sopro vital da primavera,

Que malnascida, lânguida se inclina.

As lágrimas do mísero cativo

Caíram sobre vós, quando embalaram

Vosso berço seus braços;

Sangue do cativeiro alimentou-vos;

O vício dele herdastes,

Senhores vos julgais, e sois escravos.

Entre feras nutrido, é fera o homem;

Doutrinado entre servos,

Afeito ao mando, a Liberdade odeia,

E o peito se endurece.

E vós cuidais ser livres!

Por vós, por vós só falo, oh Mocidade!

Ah não me detesteis; malgrado vosso

O mal herdastes; — mas o mal tem cura.

Ah quando bons costumes,

Pura Moral, amor nobre e celeste

Vos tomarão no berço?

Ah quando ah, quando a sã Filosofia,

Sobre vós seus fulgores espargindo,

Destronará a túmida indolência,

Que o vosso clima infesta,

E as portas à Ciência, e às Artes fecha?

O Egoísmo, que só para si olha,

Tudo em si concentrando,

E os laços quebra que os humanos ligam

Em fraternal amplexo,

Quando, de vós fugindo, aos vossos olhos

Deixará que paixões que alma enobrecem,

Sublimes resplendeçam?

Alerta, oh Mocidade!

A Pátria por vós chama.

Mostrai que da verdade

Santo amor vos inflama.

Alerta! erguei a fronte,

Medi vosso terreno;

E o vale, e o prado, e o monte

Se dobre ao vosso aceno.

Não diga o estrangeiro,

Que vê tantas belezas,

Que o povo Brasileiro

É pobre entre riquezas.

Bani tanta vaidade;

Ciência, Indústria, e Artes

São só da Liberdade

Os firmes baluartes.

Erguei-vos, e sem susto

Lutai com o erro fútil;

Amai tudo que é justo,

Santo, sublime, e útil.

Alerta, oh Mocidade!

A Pátria por vós chama.

Mostrai que da verdade

Santo amor vos inflama.