Julieta dos Santos

By João da Cruz e Sousa

Quando eu te vi pela primeira vez no palco

Avassalando as almas,

N’Um referver de palmas,

Cheia de vida e cândido lirismo!

Senti na mente uns divinais tremores...

E louco e louco,

A pouco e pouco

Vi rebentar o inferno cataclismo!...

Mil pensamentos galoparam, céleres

Por minha fronte

E do horizonte

Quis arrancar os astros diamantinos,

Para arrojá-los a teus pés mimosos

E arrebatado,

Fanatizado

Por entre um mar de cintilantes hinos!...

Esse teu busto, a genial cabeça

Tão bem talhada

E burilada

Com o escopro límpido da arte,

Tem umas puras fulgurações suaves

E a tu’alma

Ardente ou calma

Os corações arrasta por toda a parte!...

A encarnação tu és das maravilhas,

A doce aurora,

Branda e sonora

Das teatrais e lúcidas ideias!...

Tens no olhar o filtro que arrebata

E és profética

E magnética,

Possuis na voz o som das melopeias!...

És a escolhida pare as grandes lutes

Esplendorosas

E majestosas!...

E sobre os débeis, delicados ombros,

Bem como Homero a sua lira d’ouro,

Resplandecente,

Trazes pendente

O Infinito enorme dos assombros!...

Quando apareces tudo ri e chore,

Se endeusa, agita,

Como que palpita

N’Uma explosão de férvidos louvores!.

E o potentado mais febril da terra

Gagueja um bravo,

E faz-se escravo

O mais severo e nobre dos senhores!...

A Dejaset, uma Favart, Rachel,

O João Caetano

Como um arcano

Imperscrutável, hórrido, terrível!...

Quebram as louças sepulcrais e frias

E te louvando

Vão reinando...

Dizem que é sonho, é mito, é impossível!

Oh! tu nasceste para suplantar, JULIETA

Os grandes mundos,

Os mais profundos

D’ess’arte bela, magistral, divina!...

E esse olhar tão expressivo e terno

Já eletriza

E cauteriza...

É como um raio que a corações fulmina!...

Que sol é este, vão bradando os polos,

Tão sobranceiro,

Que o brasileiro

O vasto império confundindo está?!...

Venham teólogos, venham sábios... todos

Venham troianos,

Venham germanos,

Venham os vultos da Caldeia, lá!...

Oh! resolvei o mais atroz problema,

Fundo mistério,

Alto, sidério

Do gênio altivo na criança, ali!...

Vamos, natura, rasga o véu dos medos,

Dizei ó mares,

Falai luares,

Sombras dos bosques, respondei-me aqui!...

Astros da noite, tempestades, ventos

Erguei as vozes,

Falai velozes

N’um som estranho, n’um clangor audaz!...

E respondei-me e explicai ao orbe

Se essa menina,

Que nos fascina

É um fenômeno ou outro tanto mais!...

Tudo emudece na natura imensa

E desde os Andes,

Dos cedros grandes

Ao verme, à pedra, às amplidões do mar!...

Tudo se oculta na invisível raia

No espaço a bruma,

No mar a espuma

Vão-se esgarçando também, a se ocultar!...

Tudo emudece na natura imensa

Quando na cena

Surges serena

Como a visão das noites infantis!

Dos olhos vivos dos que são teus adeptos

Bem como prata

Eis se desata

A aluvião de lágrimas febris!...

É que tu tens esse poder superno

Real, sublime

Que até ao crime

Faz arrastar o mísero mortal!

É que tu és a embrionária horrível,

Mística, ingente

Que de repente

Fazes de um ser estúpido animal!...

Tudo emudece na natura imensa

Desde nos campos

Os pirilampos

Até as grimpas colossais do céu!...

Tudo emudece e até eu JULIETA,

Já delirante

Vou vacilante

Cair-te aos pés como um servil, um réu!!...