LAMENTA O POETA O TRISTE PARADEYRO DA SUA FORTUNA DESCREVENDO AS MIZERIAS DO RE...

By Gregório de Matos Guerra

Nesta turbulenta terra

armazém de pena, e dor,

confusa mais do temor,

inferno em vida.

Terra de gente oprimida,

monturo de Portugal,

para onde purga seu mal,

e sua escória:

Onde se tem por vanglória

o furto, a malignidade,

a mentira, a falsidade,

e o interesse:

Onde a justiça perece

por falta, de quem a entenda,

e onde para haver emenda

usa Deus,

Do que usava cos Judeus,

quando era Deus de vinganças,

que com todas as três lanças

de sua ira

De seu tronco nos atira

com peste, e sanguínea guerra,

com infecúndias da terra,

e pestilente

Febre maligna, e ardente,

que aos três dias, ou aos sete

debaixo da terra mete

o mais robusto.

Corpo queimado, e combusto,

sem lhe valer medicina,

como se peçonha fina

fora o ar:

Deste nosso respirar

efeitos da zona ardente,

onde a etiópica gente

faz morada:

Gente asnaval, e tostada,

que da cor da escura noite

a pura marca, e açoite

se encaminha:

Aqui a fortuna minha

conjurada com seu fado

me trazem em tal estado,

qual me vejo.

Aqui onde o meu desejo

debalde busca seu fim,

e sempre me acho sem mim,

quando me busco.

Aqui onde o filho é fusco,

e quase negro é o neto,

negro de todo o bisneto

e todo escuro;

Aqui onde ao sangue puro

o clima gasta, e conforme,

o gesto rói, e corcome

o ar, e o vento,

Sendo tão forte e violento,

que ao bronze metal eterno,

que o mesmo fogo do inferno

não gastara,

O racha, quebra, e prepara,

que o reduz a quase nada;

os bosques são vil morada

de Empacassas

Animais de estranhas raças,

de Leões, Tigres, e Abadas,

Elefantes às marradas,

e matreiros:

Lobos servis, carniceiros,

Javalis de agudas setas,

Monos, Bugios de tretas

e dos rios

Há maldições de assobios

de crocodilos manhosos

de cavalos espantosos

dos marinhos,

Que fazem horrendo ninhos

nas mais ocultas paragens

das emaranhadas margens,

e se acaso,

Quereis encher de água um vaso,

chegando ao rio ignorante

logo nesse mesmo instante

vos sepulta

Na tripagem mais oculta

um intrépido lagarto,

vós inda vivo, ele farto:

pelo que

Não ousais a pôr o pé

uma braça da corrente

que este tragador da gente

vos obriga

A fugir-lhe da barriga;

Deus me valha, Deus me acuda,

e com sua santa ajuda

me reserve:

Em terra não me conserve,

onde a sussurros, e a gritos

a multidão de mosquitos

toda a noite

Me traga em contino açoite,

e bofetadas soantes,

porque as veias abundantes

do vital

Humor puro, e cordial

não veja quase rasgadas

a puras ferretoadas:

e inda é mais;

Se acaso vos inclinais

por fugir da ocasião

da vossa condenação

a lavrador,

Estando a semente em flor,

qual contra pintos minhotos,

um bando de gafanhotos,

imundícia,

Ou qual bárbara milícia

em confusos esquadrões

marcham confusas legiões,

(estranho caso!)

Que deixam o campo raso,

sem raiz, talo, nem fruto,

sem que o lavrador astuto

valer lhe possa:

Antes metido na choça

se lastima, e desconsola

vendo, o quão geral assola

esta má praga.

Há uma cobra, que traga

de um só sorvo, e de um bocado

um grandíssimo veado:

e se me ouvis,

Há outra chamada Enfuís,

que se vos chegais a ela

vos lança uma esguicha dela

de peçonha,

Quantidade, que se exponha

bem dos olhos na menina,

com dores, que desatina

o paciente:

Cega-vos incontinenti

que o trabuco vos assesta

distante um tiro de besta:

(ó clemência

De Deus?) ó onipotência,

que nada embalde criaste!

Para que depositaste

num lugar

instrumentos de matar

tais, e em tanta quantidade!

e se o sol com claridade,

e reflexão

É causa da geração

como aqui corrompe, e mata?

e se a lua cria a prata,

e seu humor

Almo, puro, e criador

comunica às verdes plantas,

como aqui maldades tantas

descarrega?

E se a chuva só se emprega

em fertilizar os prados,

como febres aos molhados

dá mortais?

E se quantos animais

a terra sustenta, e cria,

são dos homens comedia,

como nesta

Terra maldita, e infesta,

triste, horrorosa, e escura

são dos homens sepultura?

Mas, Senhor,

Vós sois sábio e criador

desta fábrica do mundo,

e é vosso saber profundo,

e sem medida.

Lembrai-vos da minha vida,

antes que em pó se desfaça,

ou dai-me da vossa graça

por eterna despedida.