Lembra-te de mim

By Delminda Silveira de Sousa

Do pé da tenra grama debruçada,

florinha azul mimosa,

à corrente fugace enamorada

dizia, suspirosa:

Ah! não me deixes, meiga fugitiva,

não me deixes assim,

leva em teu seio a pobre flor cativa,

ai! lembra-te de mim!

Deixa rever-me em tua face pura,

neste cristal, oh, sim!

Para um momento, ó mágica doçura...

ai! lembra-te de mim!

Vê: si eu não tenho dos jasmins a neve,

das rosas o carmim,

tenho do Céu azul a tinta leve...

ai! lembra-te de mim!

Mas a corrente, — a meiga fugitiva —

corria sem cansar,

a pobre flor azul, triste, cativa,

morria a suspirar.

“Adeus!” já diz o sol adormecendo

num leito de rubis;

“adeus!” — volve a papoula desprendendo

as pétalas gentis.

E no Céu linda nuve’em flocos d’ouro

gazil se desmanchou;

era de fadas místico tesouro,

mil perlas derramou.

Sobre a florinha terna, agonizante,

um aljôfar caiu,

e mimosa safira, num instante,

sobre a grama luziu.

Logo, ao sopro suave d’aura leve

que a impele docemente,

foi deslizando, deslizando breve,

té cair na corrente.

Voz mal distinta e doce, fugitiva,

Lá repetiu assim:

“leva em teu seio a pobre flor cativa...

ai! lembra-te de mim!...”