Lira IX

By Tomás Antônio Gonzaga

Eu sou, gentil Marília, eu sou cativo;

Porém não me venceu a mão armada

De ferro, e de furor:

Uma alma sobre todas elevada

Não cede a outra força, que não seja

A tenra mão de amor.

Arrastem pois os outros muito embora

Cadeias nas bigornas trabalhadas

Com pesados martelos:

Eu tenho as minhas mãos ao carro atadas

Com duros ferros não, com fios d’ouro,

Que são os teus cabelos.

Oculto nos teus meigos vivos olhos

Cupido a tudo faz tirana guerra:

Sacode a seta ardente;

E sendo despedida cá da terra,

As nuvens rompe, chega ao alto Empíreo:

E chega ainda quente.

As abelhas nas asas suspendidas

Tiram, Marília, os sucos saborosos

Das orvalhadas flores:

Pendentes dos teus beijos graciosos

O mel não chupam, chupam ambrosias

Nunca fartos Amores.

O Vento quando parte em largas fitas

As folhas, que meneia com brandura;

A fonte cristalina,

Que sobre as pedras cai de imensa altura,

Não forma um som tão doce, como forma

A tua voz divina.

Em torno dos teus peitos, que palpitam,

Exaltam mil suspiros desvelados

Enxames de desejos;

Se encontram os teus olhos descuidados,

Por mais que se atropelem, voam, chegam;

E dão furtivos beijos.

O Cisne, quando corta o manso largo,

Erguendo as brancas asas, e o pescoço;

A Nau, que ao longe passa,

Quando o vento lhe infuna o pano grosso,

O teu garbo não tem, minha Marília,

Não tem a tua graça.

Estima pois os mais a liberdade;

Eu prezo o cativeiro: sim, nem chamo

À mão de amor ímpia:

Honro a virtude, e os teus dotes amo:

Também o grande Aquiles veste a saia,

Também Alcides fia.