Lira VI

By Tomás Antônio Gonzaga

Oh! Quanto pode em nós a vária Estrela!

Que diversos que são os gênios nossos!

Qual solta a branca vela,

E afronta sobre o pinho os mares grossos;

Qual cinge com a malha o peito duro,

E marchando na frente das coortes,

Faz a torre voar, cair o muro.

O sórdido avarento em vão defende

Que possa o filho entrar no seu tesouro;

Aqui fechado estende

Sobre a tábua, que verga, as barras d’ouro.

Sacode o jogador do copo os dados;

E numa noite só, que ao sono rouba,

Perde o resto dos bens, do pai herdados.

O que da voraz gula o vício adora,

Da lauta mesa os seus prazeres fia.

E o terno Alceste chora

Ao som dos versos, a que o gênio o guia.

O sábio Galileu toma o compasso,

E sem voar ao Céu, calcula, e mede

Das Estrelas, e Sol o imenso espaço.

Enquanto pois, Marília, a vária gente

Se deixa conduzir do próprio gosto,

Passo as horas contente

Notando as graças do teu lindo rosto.

Sem cansar-me a saber se o Sol se move;

Ou se a terra volteia, assim conheço

Aonde chega o poder do grande Jove.

Noto, gentil Marília, os teus cabelos.

E noto as faces de jasmins, e rosas:

Noto os teus olhos belos,

Os brancos dentes, e as feições mimosas:

Quem faz uma obra tão perfeita, e linda,

Minha bela Marília, também pode

Fazer os Céus, e mais, se há mais ainda.