Lira VIII

By Tomás Antônio Gonzaga

Marília, de que te queixas?

De que te roubou Dirceu

O sincero coração?

Não te deu também o seu?

E tu, Marília, primeiro

Não lhe lançaste o grilhão?

Todos amam: só Marília

Desta Lei da Natureza

Queria ter isenção?

Em torno das castas pombas,

Não rulam ternos pombinhos?

E rulam, Marília, em vão?

Não se afagam c’os biquinhos?

E a prova de mais ternura

Não os arrasta a paixão?

Todos amam: só Marília

Desta Lei da Natureza

Queria ter isenção?

Já viste, minha Marília,

Avezinhas, que não façam

Os seus ninhos no verão?

Aquelas, com que se enlaçam,

Não vão cantar-lhes defronte

Do mole pouso, em que estão?

Todos amam: só Marília

Desta Lei da Natureza

Queria ter isenção?

Se os peixes, Marília, geram

Nos bravos mares, e rios,

Tudo efeitos de Amor são.

Amam os brutos ímpios,

A serpente venenosa,

A onça, o tigre, o leão.

Todos amam: só Marília

Desta Lei da Natureza

Queria ter isenção?

As grandes Deusas do Céu

Sentem a seta tirana

Da amorosa inclinação.

Diana, com ser Diana,

Não se abrasa, não suspira

Pelo amor de Endimião?

Todos amam: só Marília

Desta Lei da Natureza

Queria ter isenção?

Desiste, Marília bela,

De uma queixa sustentada

Só na altiva opinião.

Esta chama é inspirada

Pelo Céu; pois nela assenta

A nossa conservação.

Todos amam: só Marília

Desta Lei da Natureza

Não deve ter isenção.