Lira XI

By Tomás Antônio Gonzaga

Não toques, minha Musa, não, não toques

Na sonorosa Lira,

Que às almas, como a minha, namoradas

Doces canções inspira:

Assopra no clarim, que apenas soa,

Enche de assombro a terra!

Naquele, a cujo som cantou Homero,

Cantou Virgílio a Guerra.

Busquemos, ó Musa,

Empresa maior;

Deixemos as ternas

Fadigas do Amor.

Eu já não vejo as graças, de que forma

Cupido o seu tesouro;

Vivos olhos, e faces cor-de-rosa,

Com crespos fios de ouro:

Meus olhos só veem graças, e loureiros;

Veem carvalhos, e palmas;

Veem os ramos honrosos, que distinguem

As vencedoras almas.

Busquemos, ó Musa,

Empresa maior;

Deixemos as ternas

Fadigas do Amor.

Cantemos o herói, que já no berço

As serpes despedaça;

Que fere os Cacos, que destrona as hidras;

Mais os leões, que abraça.

Cantemos, se isto é pouco, a dura guerra

Dos Titãs, e Tifeus,

Que arrancam as montanhas, e atrevidos

Levam armas aos Céus.

Busquemos, ó Musa,

Empresa maior;

Deixemos as ternas

Fadigas do Amor.

Anima pois, ó Musa, o instrumento,

Que a voz também levanto,

Porém tu deste muito acima o ponto,

Dirceu não sobe tanto:

Abaixa, minha Musa, o tom, qu’ergueste;

Eu já, eu já te sigo.

Mas, ah! vou a dizer “Herói”, e “Guerra”,

E só Marília digo.

Deixemos, ó Musa,

Empresa maior;

Só posso seguir-te

Cantando de Amor.

Feres as cordas d’ouro? Ah! Sim, agora

Meu canto já se afina:

E a humana voz parece que ao som delas

Se faz também divina.

O mesmo, que cercou de muro a Tebas,

Não canta assim tão terno;

Nem pode competir comigo aquele,

Que desceu ao negro Inferno.

Deixemos, ó Musa,

Empresa maior;

Só posso seguir-te

Cantando de Amor.

Mal repito “Marília”, as doces aves

Mostram sinais de espanto;

Erguem os colos, voltam as cabeças,

Param o ledo canto:

Move-se o tronco, o vento se suspende;

Pasma o gado, e não come:

Quanto podem meus versos! Quanto pode

Só de Marília o nome!

Deixemos, ó Musa,

Empresa maior;

Só posso seguir-te

Cantando de Amor.