Lira XII

By Tomás Antônio Gonzaga

Topei um dia

Ao Deus vendado,

Que descuidado

Não tinha as setas

Na ímpia mão.

Mal o conheço,

Me sobe logo

Ao rosto o fogo,

Que a raiva acende

No coração.

“Morre, tirano;

Morre, inimigo.”

Mal isto digo,

Raivoso o aperto

Nos braços meus.

Tanto que o moço

Sente apertar-se,

Para salvar-se

Também me aperta

Nos braços seus.

O leve corpo

Ao ar levanto;

Ah! e com quanto

Impulso o trago

Do ar ao chão!

Pôde suster-se

A vez primeira;

Mas à terceira

Nos pés, que alarga,

Se firma em vão.

Mal o derrubo,

Ferro aguçado

No já cansado

Peito, que arqueja,

Mil golpes deu.

Suou seu rosto;

Tremeu gemendo;

E a cor perdendo,

Bateu as asas;

Enfim morreu.

Qual bravo Alcides,

Que a hirsuta pele

Vestiu daquele

Grenhoso bruto,

A quem matou;

Para que prove

A empresa honrada,

Co’a mão manchada

Recolho as setas,

Que me deixou.

Ouviu Marília

Que Amor gritava;

E como estava

Vizinha ao sítio

Valer-lhe vem.

Mas quando chega

Espavorida,

Nem já de vida

O fero monstro

Indício tem.

Então, Marília,

Que o vê de perto

De pó coberto,

E todo envolto

No sangue seu,

As mãos aperta

No peito brando,

E aflita dando

Um ai, os olhos

Levanta ao Céu.

Chega-se a ele

Compadecida;

Lava a ferida

C’o prato amargo,

Que derramou.

Então o monstro

Dando um suspiro,

Fazendo um giro

Co’a baça vista,

Ressuscitou.

Respira a Deusa;

E vem o gosto

Fazer no rosto

O mesmo efeito,

Que fez a dor.

Que louca ideia

Foi, a que tive!

Enquanto vive

Marília bela,

Não morre Amor.