Lira XIII

By Tomás Antônio Gonzaga

Oh! quantos riscos,

Marília bela,

Não atropela

Quem cego arrasta

Grilhões de Amor!

Um peito forte,

De acordo falto,

Zomba do assalto

Do vil traidor.

O amante de Hero

Da luz guiado,

C’o peito ousado

Na escura noite

Rompia o mar.

Se o Helesponto

Se encapelava,

Ah! não deixava

De lhe ir falar.

Do Cantor Trácio

A heroicidade

Esta verdade,

Minha Marília,

Prova também.

Cheio de esforço

Vai ao Cocito

Buscar aflito,

Seu doce bem.

Que ação tão grande

Nunca intentada!

Ao pé da entrada

Já tudo assusta

O coração:

Pendentes rochas,

Campos adustos,

Nem ervas dão.

Na funda fralda

De calvo monte,

Corre Aqueronte,

Rio de ardente,

Mortal licor.

Tem o barqueiro

Testa enrugada,

Vista inflamada,

Que mete horror.

Que seguranças!

Que fechaduras!

As portas duras

Não são de lenhos;

De ferro são.

Por três gargantas,

Quando alguém bate,

Raivoso late

O negro cão.

Dentro da cova

Soam lamentos;

Não mostra aos olhos

A escassa luz!

Minos a pena

Manda se intime

Igual ao crime,

Que ali conduz.

Grande penedo

Este carrega;

E apenas chega

Do monte ao cume,

O faz rolar.

A pedra sempre

Ao vele desce,

Sem que ele cesse

De a ir buscar.

Nas limpas águas

Habita aquele:

Por cima dele

Verdejam ramos,

Que pomos dão.

Debalde a boca

Molhar pretende.

Debalde estende

Faminta mão.

Tem outro o peito

Despedaçado:

Monstro esfaimado

Jamais descansa

De lho roer.

A roxa carne,

Que o abutre come,

Não se consome,

Torna a crescer.

Mas bem que tudo

Pavor inspira,

Tocando a lira

Desce ao Averno

O bom Cantor.

Não se entorpece

A língua, e braço;

Não treme o passo,

Não perde a cor.

Ah! também quanto

Dirceu obrara,

Se precisara

Marília bela

De esforço seu!

Rompera os mares

C’o peito terno,

Fora ao Inferno,

Subira ao Céu.

Aos dois amantes

De Trácia, e Abido

Não deu Cupido

Do que aos mais todos

Maior valor.

Por seus vassalos

Forças reparte,

Como lhes parte

Os graus de Amor.