Lira XIX

By Tomás Antônio Gonzaga

Enquanto pasta alegre o manso gado,

Minha bela Marília, nos sentemos

À sombra deste cedro levantado.

Um pouco meditemos

Na regular beleza,

Que em tudo quanto vive, nos descobre

A sábia natureza.

Atende, como aquela vaca preta

O novilhinho seu dos mais separa,

E o lambe, enquanto chupa a lisa teta.

Atende mais, ó cara,

Como a ruiva cadela

Suporta que lhe morda o filho o corpo,

E salte em cima dela.

Repara, como cheia de ternura

Entre as asas ao filho essa ave aquenta,

Como aquela esgravata a terra dura,

E os seus assim sustenta;

Como se encoleriza,

E salta sem receio a todo o vulto,

Que junto deles pisa.

Que gosto não terá a esposa amante,

Quando der ao filhinho o peito brando,

E refletir então no seu semblante!

Quando, Marília, quando

Disser consigo: “É esta

“De teu querido pai a mesma barba,

“A mesma boca, e testa.”

Que gosto não terá a mãe, que toca,

Quando o tem nos seus braços, c’o dedinho

Nas faces graciosas, e na boca

Do inocente filhinho!

Quando, Marília bela,

O tenro infante já com risos mudos

Começa a conhecê-la!

Que prazer não terão os pais ao verem

Com as mães um dos filhos abraçados;

Jogar outros luta, outros correrem

Nos cordeiros montados!

Que estado de ventura!

Que até naquilo, que de peso serve,

Inspira Amor, doçura.