Lira XVI

By Tomás Antônio Gonzaga

Eu, Glauceste, não duvido

Ser a tua Eulina amada

Pastora formosa,

Pastora engraçada,

Vejo a sua cor-de-rosa,

Vejo o seu olhar divino,

Vejo os seus purpúreos beiços,

Vejo o peito cristalino;

Nem há coisa, que assemelhe

Ao crespo cabelo louro.

Ah! que a tua Eulina vale,

Vale um imenso tesouro!

Ela vence muito, e muito

À laranjeira copada,

Estando de flores,

E de frutos ornada.

É, Glauceste, os teus Amores;

E nem por outra Pastora,

Que menos dotes tivera,

Ou que menos bela fora,

O meu Glauceste cansara

As divinas cordas de ouro.

Ah! que a tua Eulina vale,

Vale um imenso tesouro!

Sim, Eulina é uma Deusa;

Mas anima a formosura

De uma alma de fera;

Ou inda mais dura.

Ah! quando Dirceu pondera

Que o seu Glauceste suspira,

Perde, perde o sofrimento,

E qual enfermo delira!

Tenha embora brancas faces,

Meigos olhos, fios de ouro,

A tua Eulina não vale,

Não vale imenso tesouro.

O fuzil, que imita a cobra,

Também aos olhos é belo:

Mas quando alumeia,

Tu tremes de vê-lo.

Que importa se mostra cheia

De mil belezas a ingrata?

Não se julga formosura

A formosura, que mata.

Evita, Glauceste, evita

O teu estrago, e desdouro;

A tua Eulina não vale,

Não vale imenso tesouro.

A minha Marília quanto

À natureza não deve!

Tem divino rosto,

E tem mãos de neve.

Se mostro na face o gosto,

Ri-se Marília contente;

Se canto, canta comigo,

E apenas triste me sente,

Limpa os olhos com as tranças

De fino cabelo louro.

A minha Marília vale,

Vale um imenso tesouro.